A oportunidade da Semana Nacional do Trânsito, que está se realizando em todo o Brasil e irá até sábado, dá ensejo e um despertamento para a precariedade do sistema viário, nas cidades e nas rodovias. Porque há um olhar vesgo do poder público, que só encontra erros nos motoristas e pedestres e muito pouco em si próprio. Por isso a Semana do Trânsito deveria, ao invés de tanto fazer recomendações, atentar mais para as queixas dos usuários de ruas e estradas. O diretor do Departamento Nacional de Trânsito (o Denatran) diz que ''a responsabilidade é sempre do condutor de veículo'', e que ''se o pedestre também tomar cuidado, ajudará muito''. Isto é indiscutível, mas observa-se que aquela autoridade não inclui o poder público como integrante dessa responsabilidade, ou seja, a parte infra-estrutural instalada, incluindo o quadro do pessoal. ''Vamos procurar mostrar a forma adequada de andar e atravessar ruas''', declara ele. Mas deve saber o diretor do Denatran que o pedestre quase nunca tem vez, ao fazer essa travessia. Porque a faixa de segurança não lhe dá garantia alguma, já que não há sinal para ele. Ou seja, quando os carros param numa via, vêm imediatamente aqueles da outra rua que convergem ou para a direita ou para a esquerda. Como o fluxo é contínuo e sem interrupção quando deveria haver um tempo de espera também para as conversões o caminhante tem de correr para atravessar a rua, com risco de ser atropelado. Primeiro, portanto, o poder público deverá fazer a sua parte, porque nas cidades brasileiras não há vez para o pedestre. O diretor do Denatran afirma que em algumas cidade 60% dos acidentes envolvem pedestres, ''porque eles não sabem andar em rua pública''. Em outras palavras, será como dizer ao pedestre que ele deve aprender a voar ou saltar, para livrar-se dos carros, já que nunca lhe é dado um tempo. Faixa de pedestre de nada serve se os veículos não param. Afora essa falha, o mais são sinaleiros desincronizados, sistema viário sem grande planejamento, ruas esburacadas, sinalização insuficiente, armadilhas perigosas como tachões, tartarugas, quelônios e outros nódulos, encontráveis nas ruas e também nas cabeças dos ''técnicos''. Se tragédias no trânsito acontecem, elas são provocadas por razões várias, destacando-se imprudência dos condutores e dos pedestres mas também dos agentes encarregados do setor. De sua vez, o diretor do Detran do Paraná declara que ''o fator humano é o grande responsável pelos acidentes de trânsito''. Ele só não diz que o fator humano representa também os contingentes da parte pública do sistema, tão negligentes quanto os motoristas e pedestres. Semanas de educação são providenciais, mas será preciso promovê-las também para educar (salvem-se as exceções) todo o elenco de pessoas despreparadas que cuidam da infra-estrutura do tráfego nas ruas e estradas.

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