Edmilson Feliciano Leite, presidente da Associação Projeto Educação do Assalariado Rural Temporário (APEART), de Londrina, surpreendeu-se com as dificuldades impostas pela violência ao iniciar, em 2002, um trabalho de alfabetização de adultos em bairros como São Marcos, União da Vitória, Franciscato, Nossa Senhora da Paz, nos quais se concentram as ''favelas'' da cidade. ''Começamos com 900 alunos mas até o fim do ano contabilizávamos quase 50% de evasão'', conta. Isso se deve, segundo acredita, ''ao altíssimo índice de violência existente nesses locais e à desmotivação que isso acarreta''.
Os educadores, chamados de ''educadores populares'', porque pertencem à própria comunidade onde desenvolvem o trabalho, sendo, em geral, líderes comunitários, estão entre os mais visados pela ação da violência. ''No decorrer da implantação desse projeto muitos deles, para dar aulas, tiveram de driblar o toque de recolher ou o pedágio definidos pelo poder do tráfico'', conta Edmilson. Nem todos conseguiram.
Edmilson exemplifica, citando um caso recente, quando uma carta recheada de denúncias chegou a uma rede de tevê. Não havia assinatura, mas o autor revelava o nome do bairro e dizia que havia se sentido motivado a escrever, porque acabara de ser alfabetizado. Esses dados foram mais do que suficientes para identificar a educadora popular do bairro, que precisou, para preservar sua integridade física, ficar escondida por algum tempo.
A associação entre educação e cidadania é muito clara para o presidente da APEART. ''Não se trata só de erradicar o analfabetismo, mas também de oferecer a possibilidade de mudança na condição de vida da pessoa e de sua comunidade, já que aprender a ler e a escrever leva a uma maior consciência em relação aos direitos da cidadania'', comenta.
O Projeto Educação dos Posseiros do Paraná (PEPO), outra iniciativa da APEART, com atuação no município de Pinhão, região Sul do estado (próximo a Guarapuava), revela como isso pode ocorrer na prática. Cooperando para que o índice de analfabetismo na região caísse, em 10 anos, de 80% para 20%, o PEPO também estimulou a comunidade local a aprender a utilizar, a seu favor, a ''arma'' com que grileiros e madeireiras costumavam vencer os recorrentes conflitos em relação à posse de terra: o documento. ''Como não sabiam ler, nem escrever ficava muito fácil enganá-los nessa questão'', relata Edmilson.
Mais um exemplo de como a educação amplia os horizontes da cidadania pode ser encontrado no Projeto Educação Reviver Indígena (PERI), também da APEART. O objetivo, nesse caso, é oferecer aos índios Kaingang e Guarani, com comunidades situadas no município de Londrina (Kaingang) e nas regiões Sul e Sudoeste do Paraná (Guarani), que registram altos índices de evasão do sistema escolar oficial, uma educação específica, bilingue, capaz de integrar culturas.
Em 2002, 40 índios da reserva Kaingang conseguiram concluir o 2º grau e, com isso, habilitaram-se a disputar as vagas a eles reservadas nas universidades públicas (três vagas por universidade). A ambição da APEART agora, segundo seu presidente, ''é ver educadores se formando em Pedagogia Indígena''.

mockup