EducaçãoA importância do vínculo aluno-professor
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de fevereiro de 2015
Ana Paula Nascimento e Fábio Galão<br>Reportagem Local 
O conceito de pedagogia afetiva prega que o alto nível de vinculação afetiva entre professores e alunos incrementa o processo de ensino-aprendizagem. O professor Júlio Furtado, pedagogo e psicólogo, diplomado em psicopedagogia pela Universidade de Havana (Cuba), mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em Ciências da Educação também pela Universidade de Havana, é um dos defensores dessa tese.
Furtado esteve em Londrina no dia 24 de janeiro, quando realizou a palestra de abertura de um encontro pedagógico promovido pelo Sistema Maxi de Ensino. Em entrevista à FOLHA, ele falou da importância de estabelecer e manter esses vínculos afetivos, da necessidade de preparar os profissionais de educação para que coloquem em prática esse conceito e do fracasso da postura de poder e ameaça ainda mantida por muitos docentes.
O tipo de pedagogia que o senhor defende, que valoriza o vínculo afetivo dos professores com os alunos, tem relação com a pedagogia do afeto, tão apregoada pelo educador Paulo Freire?
Sim. O afeto deve ser um facilitador relacional que potencializa a aprendizagem. Está provado cientificamente que gostar do professor leva o aluno a aprender de forma mais segura. Paulo Freire dizia que o professor deve pegar os olhos dos alunos emprestados para que consigam ver o mundo segundo sua perspectiva. Só assim, segundo ele, professor e aluno falam a mesma linguagem.
De modo geral, os professores aceitam bem essa proposta? Não é comum eles se queixarem que já estão sobrecarregados e que se preocupar em "criar vínculos" seria um peso, uma obrigação a mais?
Alguns professores ainda resistem a se aproximar do aluno e travar com ele uma relação mais humanizada. Ainda acreditam que seu papel se resume a ensinar os conteúdos. Quando, porém, conseguem quebrar a resistência e experimentar uma relação mais humana, criando vínculos afetivos com os alunos, descobrem o quanto sua tarefa fica mais leve. Os professores que se resumem a "ensinadores de conteúdo" vivenciam uma angústia muito grande, na medida em que precisam apelar frequentemente para ameaças e castigos. Além de que, professores desse tipo estão sendo facilmente substituídos pela tecnologia, pois softwares e vídeos costumam ser mais eficazes na apresentação de conteúdos.
É interessante o senhor reforçar a importância da criação desse vínculo, ainda mais quando se consideram público-alvo os alunos do Ensino Médio, que em plena fase da adolescência parecem tão indiferentes à família, aproximando-se mais dos amigos, até como parte do processo de construção da própria identidade. Por favor, fale mais sobre isso, principalmente pelo fato do senhor ser formado em pedagogia e psicologia, bases fundamentais para a compreensão desse processo.
A criação de vínculos afetivos vai muito além da facilitação da aprendizagem. Muitas vezes o jovem cria muito mais empatia com alguns professores do que com os pais. Esse fato aumenta a responsabilidade dos professores de criar e manter os vínculos afetivos com seus alunos. Outro ponto que conta "a favor" do professor é o fato de lidar com vários adolescentes que tendem a apresentar comportamentos e problemas semelhantes. Além de que, junto com outros colegas, o jovem se sente mais encorajado a se abrir e buscar ajuda quando necessário. Os professores de Ensino Médio deveriam ser melhor preparados para exercer esse papel. Nos Estados Unidos, por exemplo, há essa preocupação e boa parte dos professores desse segmento são formados como professores-conselheiros.
Como foi a experiência de estudar e aprimorar os estudos em Cuba? Houve um grande choque cultural?
Busquei estudar em Cuba exatamente atraído pelos ótimos resultados obtidos no campo educacional. Foi uma experiência ímpar, na medida em que tive que me adaptar a uma sociedade com valores muito diferentes dos meus. Aprendi a ser menos consumista, mais colaborador e, acima de tudo, aprendi que cargo ou posição social não me coloca em posição especial diante dos compromissos sociais. No processo educacional, aprendi que educação e trabalho precisam caminhar juntos desde a Educação Infantil, que as metodologias colaborativas precisam predominar no dia a dia da sala de aula e que todo professor precisa incorporar o seu papel de construtor de vínculos afetivos, antes do papel de "ensinador de conteúdos".
O senhor também pontua a necessidade fundamental dos professores pararem para refletir sobre as diferenças entre as gerações X, Y e Z para melhorar a comunicação e o desempenho da aprendizagem. A maioria dos professores se dá conta disso?
Infelizmente a maioria dos professores continua mantendo uma relação baseada no poder, na ameaça e na repreensão. Reproduzem o que vivenciaram enquanto alunos com os seus professores. Percebem que as crianças e jovens que estão diante deles são diferentes, mas preferem achar que uma boa bronca vai resolver tudo e que o que falta é uma educação mais rígida. Já temos sinais comprovados de elementos que facilitam a comunicação com essa geração, embora muitas pesquisas ainda precisem ser realizadas. Propor atividades virtuais e "conectadas" que sejam desafiadoras, definir claramente metas e objetivos, levá-los a aplicar o método de tentativa e erro e diversificar as formas de comunicação são algumas das estratégias que demonstram resultados satisfatórios.
O senhor teve professores afetivos na sua infância? Isso fez diferença na sua aprendizagem?
Sim, vários. A maior diferença foi a inspiração para que eu me tornasse um professor. Tive muitos professores e didaticamente competentes, o que fez com que eu suportasse mais facilmente os não vocacionados. Fico bastante preocupado e penalizado com essa geração de estudantes que infelizmente não estão tendo essa sorte.
Fique à vontade para fazer outras considerações que achar relevantes.
Construir vínculos na sala de aula é criar relações afetivas positivas entre alunos e professor e alunos entre si. Esse processo ocorre a partir de situações vivenciadas que provoquem sentimentos e emoções positivas. Para isso, o professor deve ter um olhar inclusivo e acolhedor e deve adotar atitudes que concretizem esse olhar. Embora os vínculos na relação aluno-aluno sejam criados e desenvolvidos naturalmente através do convívio diário, é importante que os professores fiquem atentos à qualidade desses vínculos e façam intervenções no sentido de facilitar a construção de vínculos saudáveis. Propor atividades coletivas nas quais os alunos possam vivenciar a intercomplementaridade de tarefas e os efeitos benéficos do trabalho em rede é ação indicada para esse fim. Crianças e adolescentes que se sentem afetivamente ligados a seus professores predispõem-se mais fácil e intensamente à aprendizagem. É papel do professor criar um ambiente propício à construção de vínculos afetivos na sala de aula visando potencializar a aprendizagem dos alunos. Pesquisas realizadas com alunos de Ensino Médio de escolas públicas estaduais do Rio de Janeiro evidenciam que 92% dos professores apontados pelos alunos como os que melhor ensinam são os mesmos apontados como os que eles mais gostam. Turmas de escolas públicas que apresentam bons resultados em avaliações externas possuem, em sua grande maioria, alto nível de vinculação afetiva entre professores e alunos. Qualquer pessoa pode comprovar a importância da afetividade na relação professor-aluno, lembrando-se dos melhores professores que tiveram em suas vidas e avaliando o nível de vinculação afetiva que existia entre eles e os alunos.


