Entre 57 países, o Brasil obteve a vexatória posição de número 52 em Ciências no exame Pisa 2006, avaliação internacional feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que analisa o nível dos estudantes de 15 anos. Os conhecimentos dos representantes tupiniquins atestaram: a educação, no Brasil, continua deixando a desejar. Em entrevista à FOLHA, o professor londrinense Cleidival Fruzeri repercute o resultado pífio e, no paralelo com a Finlândia, primeira colocada, defende a participação da família, no processo de reconstrução de valores. ‘‘A educação não se faz somente com giz e cuspe’’.
  Por que o Brasil vai tão mal no ensino?
  Porque o ensino que se prega hoje é o mesmo da época em que estudei. Praticamente não houve mudança na grade curricular e na metodologia de ensino no Brasil. Em países como a Finlândia, primeira colocada no ranking do exame Pisa, o próprio governo investe em seu pessoal, trazendo boas condições para que o professor se qualifique mais e mais. No Brasil, ainda temos muitos professores por vocação e não por formação.
E qual a saída?
  Conciliar a vocação com a formação. Se conseguíssemos conjugar esses dois aspectos, em relação a nossos mestres, certamente teríamos um ensino muito melhor, pautado na qualidade. Além da qualificação, a remuneração não poderia ficar de fora da pauta de assuntos. Por fim, a infra-estrutura requer maiores atenções. Há muitas escolas no Brasil, inclusive em nossa região de Londrina, que não têm espaço físico adequado, comprometendo o aprendizado do aluno.
O espaço faz o aluno?
  Na Finlândia, a primeira do ranking, as escolas são até premiadas, por seus projetos arquitetônicos. Não adianta: o espaço conta muito. Se os alunos brasileiros tivessem diante de escolas com espaços físicos agradáveis, certamente freqüentariam o ambiente pela condição de ensino concedida e não pela merenda escolar, como vemos atualmente.
  No paralelo com a evolução da humanidade, a escola ficou para trás?
  Sem dúvidas. Reitero: há 20, 30 anos, não sabíamos o que era o MP3, o MP4, a câmera digital, a TV Digital. A internet, então, nem em sonho! Nos dias atuais, temos muitas opções sendo oferecidas aos alunos e às vezes as escolas não observam isso. Por tabela, não conseguem conciliar toda a tecnologia que existe no ambiente da sala de aula. Resultado: permanecem com aquela mentalidade de que o aluno tem que ter ‘matéria, matéria, matéria’.
  É a lógica do resultado, então?
  Sim. As escolas têm pensado na formação pró-vestibular, esquecendo o lado humano de cada aluno. Assim sendo, massificou-se o tema vestibular e idoneidade, honestidade, entre outros valores, deixaram de ser resgatados.
  Para os estudantes brasileiros apresentarem melhor desempenho, nas próximas provas, como trabalhar o fator ‘‘humano’’?
  A família exerce papel fundamental nesse processo. De alguns anos para cá, a família desajustou-se. Os pais que eram arrimo de família agora têm a companhia das mães, que ingressaram no mercado de trabalho. Essa criança acabou ficando à margem, ou seja, o pai e a mãe não dão assistência e isso reflete lá na escola. O governo não acompanhou. Por isso, esse alto índice de criminalidade nas escolas, de marginalidade e principalmente de indisciplina, com professores apanhando de alunos. Acho que o mais importante é resgatar a integração família e escola. Enquanto isso não acontecer, nós vamos piorar nesse ranking.
É necessário investimento em massa. E não me refiro somente ao giz e ao cuspe.

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