EDUCAÇÃO SEXUAL - 'Não dá mais para fugir do assunto'
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de abril de 2010
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Sexo na vida das pessoas é para trazer alegria, bem-estar e prazer
Tem professor levando o jornal para a sala de aula para discutir o assunto
Trabalhar a educação sexual em casa e na escola não estimula os jovens a fazer sexo, mas os faz adquirir maior autonomia e maior responsabilidade em relação ao assunto. O alerta é feito pela psicóloga e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), especialista em educação sexual pela Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana, Mary Neide Damico Figueiró.
Para ela, a violência sofrida na semana passada por uma garota londrinense de 13 anos por estar usando as chamadas ''pulseiras do sexo'' deve servir de alerta para pais e educadores. Segundo a psicóloga, não dá mais para fugir do assunto. ''É hora de cada um começar a se dar conta da sua responsabilidade'', alertou.
A senhora concorda com a proibição do uso das pulseiras?
Neste momento a medida é necessária. Nós nos preocupamos muito com a questão da violência sexual, com a situação de vitimização que as crianças e pré-adolescentes estão expostos. Essa é uma situação real de violência a que eles estão sujeitos e que tem que ser prevenida. Tanto as meninas como os meninos são pessoas vulneráveis. E o que desejamos é que o sexo na vida das pessoas seja para trazer alegria, bem-estar, prazer, dentro de uma situação de equilíbrio emocional, afetivo. Este é o objetivo da educação sexual.
As pulseiras podem aumentar a vulnerabilidade à violência sexual?
Sim. Além de situações críticas como esta, que chegou ao ponto do estupro, podem dar margem a outras situações de violência, não tão visíveis e que podem nem vir à tona. Porque mesmo verbalmente a violência sexual pode acontecer, por meio de insultos e de provocações, por exemplo. É uma violência psicológica com a qual nem sempre os adolescentes estão preparados para lidar. E todos somos corresponsáveis por esta não preparação dos adolescentes.
As famílias e escolas estão preparadas para lidar com o assunto?
De maneira geral, as famílias não sabem como trabalhar a educação sexual e não a trabalham. As escolas, em sua maioria, também não trabalham o tema como deve ser trabalhado: desde a infância, passando pela pré-adolescência, adolescência e juventude. E não se trata aqui de atirar pedras e sim uma constatação. Sabemos que isso não é feito porque pais e escolas não foram preparados para isso. Não fazem porque não sabem como fazer. Mas é hora de cada um começar a se dar conta de sua responsabilidade, e este fato da garota violentada vem nos dar um chacoalhão, um alerta de que esse assunto tem que ser conversado.
É a deixa que todos precisávamos...
Exatamente. A minha tese de doutorado foi transformada em um livro chamado ''Formação de educadores sexuais: adiar não é mais possível''. E é justamente isso: não dá mais para adiar. Nós temos que preparar os profissionais das diferentes áreas, as famílias, para saberem conversar sobre esse tema. Só é possível evitar situações de abuso na medida em que sentarmos para conversar com nossas crianças e jovens sobre prevenção, sobre as possibilidades de abuso no contexto da relação sexual, como eles podem ser usados como objeto e o quanto ele precisam aprender a pensar para que desenvolvam autonomia. Sei que já tem professor levando o jornal para a sala de aula e discutindo o assunto, o que é ótimo.
Este tipo de discussão dá aos jovens a noção do real perigo de uma situação como a que foi submetida a adolescente?
Tenho certeza que sim. A gente se surpreende com a potencialidade de uma aula com um professor preparado, capaz de conduzir o tema a partir de um acontecimento como esse. É surpreendente a capacidade dos adolescentes de se posicionarem, avaliarem, apresentarem uma visão crítica. Só que até agora eles não tiveram a oportunidade de parar para pensar sobre as pulseirinhas em uma situação organizada de sala, com um professor ouvindo e coordenando o debate, com espaço para que meninos e meninas exponham o seu ponto de vista. Eles não são imaturos, eles têm condições de perceber, num contexto onde estão refletindo, que o melhor é não usar o acessório.
Qual é o papel dos pais na educação sexual das crianças?
Não basta só fazer sermão. Tem que sentar, conversar, ouvir, mostrar que o canal de comunicação está aberto, que sexo é um assunto que se pode conversar em casa, que não é nada vergonhoso. É superimportante criar este clima de confiança desde cedo, respondendo às perguntas básicas da infância sem enganar ou ludibriar, conversando de forma clara e simples, sempre com a verdade, que é um direito da criança. Dependendo da idade, ela deve saber que de uma relação sexual, do encontro do espermatozóide com o óvulo, pode nascer um bebê e que portanto é coisa para gente grande. Se ela não recebe essas informações em casa ou na escola, com clareza e tranquilidade, vai saber pelos amigos, mas com ares de sacanagem e de coisa proibida. É, portanto, por meio da educação sexual que se abre o caminho para a prevenção do abuso.
Como saber o tipo de orientação que deve ser dada em cada idade?
Procurando se informar e falando sempre a verdade. Se os pais não sentirem-se preparados para responder a determinado questionamento, o melhor é ser sincero, dizer que a pergunta é muito importante, mas que terão que se preparar melhor para responder. Isso é muito melhor que a mentira.
A criança que conta com esse canal de informação junto aos pais consegue seguir as suas etapas de desenvolvimento com mais tranquilidade e está menos sujeita à sexualidade precoce?
Acredito nisso fielmente, tanto com base na minha experiência com educadores como em estudos que apontam para isso. Existe inclusive uma pesquisa da USP (Universidade de São Paulo) mostrando que os filhos que não têm diálogo com os pais terão dificuldade de dialogar com a namorada. Aqueles que têm essa abertura em casa e na escola muito provalmente deixarão para iniciar sua vida sexual quando puderem fazer sua escolha com maturidade.


