No início de 2009, 400 escolas públicas receberão máquinas que distribuirão preservativos. Segundo o Ministério da Saúde, para cada grupo de 16 homens com Aids há 10 mulheres com a doença. Entre os jovens de 13 a 19 anos ocorre o inverso: são 16 meninas com Aids para 10 meninos. Levantamento realizado em 135 escolas públicas de 33 municípios do país, com jovens de 13 a 24 anos, identificou que 89,5% dos estudantes ouvidos concordam com a disponibilização da máquina. O Ministério informa ainda que 65% dos pais ouvidos também aprovaram a iniciativa.

O anúncio da produção das máquinas foi feito durante o Congresso Brasileiro de Prevenção às DST e Aids, realizado em junho em Florianópolis. Ricardo Desidério, professor e educador sexual londrinense que participou do Congresso, conheceu o funcionamento da máquina e falou à FOLHA sobre os efeitos que ela vai causar na prevenção dos adolescentes.

Quais as escolas que irão receber as máquinas?
Primeiro serão as 400 escolas públicas do ensino médio que já participam desse Programa de Saúde e Prevenção do Ministério da Saúde. Se a instituição já desenvolve um trabalho dentro de cada estado, ela vai receber.

Alguma escola em Londrina está incluída?
Não sei de nenhuma escola que está inserida nesse programa. Lembro que no ano passado, dentro da Secretaria de Educação do Estado, nós trabalhávamos bastante essa questão, de prevenção nas escolas, só que não sei até que ponto isso era um programa da Secretaria ou se vinha do MEC. E também essas 400 máquinas são testes, para ver a adaptação. Depois, se participarem do programa, terão acesso às máquinas.

Os preservativos serão gratuitos?
Sim. A máquina tem um espaço onde o aluno vai digitar o número da matrícula e o preservativo sai. No dia do teste, questionamos quem iria fazer o abastecimento, e será a própria escola.

O fato de colocar o número da matrícula não vai inibir o aluno na hora de usar a máquina? Vão fazer um controle por esse número?
Não falaram em controle de quantos preservativos cada aluno pegou. Até comentaram de um limite, mas não foi definido ainda qual será. Acredito que será como no posto de saúde, onde os alunos podem buscar preservativos e têm um limite, acredito que de 10 por semana ou por mês.

Como as pessoas estão recebendo essa notícia da máquina?
No ano passado, quando surgiu essa idéia, as pessoas ficaram debatendo, se colocando contra. Pode gerar polêmica, mas o bom é que todo mundo levantou o assunto. O monsenhor Jonas Habib, da rede de televisão católica Canção Nova, disse que a máquina é uma imoralidade total. Eu sou católico, mas não penso assim, em imoralidade. Acho que imoralidade é nós ainda acreditarmos que não está acontecendo nada, que os adolescentes não estão saindo por aí. A máquina precisa vir acompanhada de um trabalho pedagógico. Não é só colocar e deixar ali. Por isso já estão fazendo este trabalho. As escolas estão sendo treinadas para receber esse material.

É papel da escola fornecer preservativo?
Eu não sou contra essa distribuição na escola. Primeiro deve ser feito um trabalho dentro da escola e mostrar o porquê dessa máquina, qual vai ser a função dela, porque está sendo implantada. Tem que mostrar índices de adolescentes grávidas, adolescentes portadores de DSTs. São fatos reais e a escola acaba omitindo isso, tem medo de mostrar. Eu acabo fugindo da questão da prevenção, prefiro trabalhar a valorização do corpo, o resgate da auto-estima, trabalhar o valor que ele tem no seu corpo e no do outro. Se ele valoriza seu corpo, quando ele for ter relação ele vai se prevenir. Se tivesse uma máquina na minha escola, eu não ia trabalhar para eles usarem, mas para que eles valorizassem o seu corpo. É um trabalho totalmente diferente, uma outra visão. Tem escolas em que a direção possui preservativos dentro da gaveta, e os alunos podem pedir, porque eles têm vergonha de ir até o posto de saúde para isso. E por mais que seja barato, eles têm vergonha de comprar. O número maior que compra é de mulheres, porque os homens têm vergonha de ir buscar.

Você acha que os pais e alunos estão preparados para esta máquina aqui em Londrina?
Quando saiu este comentário na minha escola, todo mundo achou que a máquina veio no momento errado, que não deve existir. Parece que estamos no tempo das cavernas. É uma tecnologia, é um meio mais fácil para os alunos estarem se prevenindo, mas eu acho que vai gerar muita polêmica. Acredito que os pais não estão preparados para aceitar isso. Os alunos estão super tranquilos. O maior desafio são os professores e os pais. Os professores que já trabalham com educação sexual deveriam começar a trabalhar já essa questão, para quando chegar as máquinas não ser aquele impacto.

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