Histórias de mobilidade social no Brasil ainda passam, em grande medida, pela educação. Em um país marcado por desigualdades persistentes, o acesso ao ensino superior continua sendo uma das principais ferramentas de transformação, sobretudo quando associado a políticas de inclusão e a estruturas de apoio que garantam não apenas o ingresso, mas a permanência dos estudantes. Mais do que formar profissionais, a universidade pública tem a capacidade de reconfigurar trajetórias e ampliar horizontes.

É nesse contexto que se insere a trajetória de Anilza Dionísio da Silva, que, aos 56 anos, concluiu o curso de Direito pela UEL, foi aprovada no Exame da OAB e, recentemente, prestou juramento como advogada. Sua caminhada reúne elementos que ajudam a dimensionar o alcance — e também os limites — desse processo. Depois de décadas fora da sala de aula e de uma vida dedicada ao trabalho em uma fábrica de confecções, o retorno aos estudos foi viabilizado por uma combinação de fatores: cursinho preparatório gratuito, política de cotas e suporte familiar.

A experiência de Anilza ilustra como mecanismos de inclusão cumprem um papel concreto na redução de desigualdades acumuladas ao longo do tempo. Ao concluir a graduação, ela não apenas obteve um diploma, mas passou a acessar um novo campo de atuação profissional. A escolha pela área previdenciária e trabalhista revela uma formação conectada à própria vivência, alguém que enfrentou dificuldades para acessar direitos e agora se posiciona para atuar justamente nesse campo.

Há também um componente de persistência que se destaca. Retomar os estudos após mais de três décadas exigiu mais do que adaptação acadêmica. Envolveu enfrentar barreiras simbólicas, disputar espaço em um ambiente majoritariamente jovem e manter uma rotina intensa de estudos até a aprovação na OAB. Nesse percurso, a rede de apoio foi decisiva: da família que assumiu responsabilidades domésticas aos colegas e professores que contribuíram com materiais e incentivo.

Ao mesmo tempo, a história evidencia desafios que permanecem mesmo após a formação. A dificuldade relatada por Anilza para se inserir no mercado jurídico por conta da idade aponta para uma forma de exclusão ainda pouco discutida. A ampliação do acesso à educação, portanto, precisa ser acompanhada por mudanças na forma como o mercado absorve esses novos profissionais.

Casos como o de Anilza ajudam a iluminar um ponto central: a educação, quando acessível e sustentada por políticas públicas, continua sendo um vetor relevante de transformação. Seus efeitos ultrapassam o indivíduo, alcançam o entorno e tensionam padrões estabelecidos.

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