Educação pede revisão de conceitos
Dois episódios ocorridos na semana passada na Educação brasileira podem deixar sequelas. O vazamento nas provas do Enem - que ainda não foi esclarecido - e a infeliz idéia de transferir para o ensino regular alunos especiais, que recebem tratamento pedagógico diferenciado nas APAEs ou escolas equivalentes. Ambos resultaram de medidas, no mínimo, precipitadas.
No caso do vazamento do Enem, a ação rápida do Ministério da Educação não o isenta de responsabilidade. Segundo gestores de administração escolar, o que se pode inferir, na melhor das hipóteses, é que o sigilo pode ter sido prejudicado pelo debate em torno das mudanças que o MEC está introduzindo este ano.
Na esteira da avaliação do episódio pode haver uma revisão de metas. A idéia original do Enem era a de ser um instrumento de avaliação individual dos alunos. Na nova concepção querem conferir ao processo algo mais avançado; querem que o Enem sirva de passaporte para que os jovens ingressem nas universidades ou no mercado de trabalho, certificando-os segundo seu desempenho. A idéia é interessante.
O fato é que ontem e hoje cerca de 4,1 milhões de estudantes em 1.826 cidades deveriam estar fazendo os testes. Com a denúncia (feita pelo jornal O Estado de São Paulo e acatada pelo Inep), a discussão ganha outro rumo e, com justificada razão, incorpora um desconfiômetro: Como acreditar na eficácia do sigilo dos futuros exames? Vale também para edições anteriores. Afinal, o sistema mostrou-se vulnerável e o compromisso das autoridades com a lisura também.
O fato de as provas suspensas serem substituidas por outras previamente elaboradas suscita mais dúvidas: Qual a garantia de que as novas provas não tenham sido batizadas. Exagero à parte, alunos, professores e pais podem sofrer esse tipo de inquietação.
Com relação à heresia técnica de promover inclusão de alunos especiais colocando-os no desconforto de salas de aulas do ensino regular, o que se espera é que o bom senso leve o MEC a uma revisão. Que os seus agentes tenham a humildade de ouvir professores e técnicos da escola especial e ampliem a discussão.
Erros serão revistos? Depende. Para isso o governo terá diagnosticar, primeiro e, depois, admitir que o projeto carece de ajustes. Mas, talvez quando isso ocorra - se vier a acontecer - seja tarde demais e já tenha causado o estrago psicológico que parece iminente.





