Educação, o Real 2 de FHC
Miguel Ignatios
Não se sabe exatamente qual é a posição do economista Paulo Renato Souza, um dos ‘‘gurus’’ do presidente Fernando Henrique Cardoso, sobre a nova polêmica que agita o Planalto: se é preciso insistir com a recessão administrada, ou se já é hora de retomar o crescimento econômico. De que lado estaria ele: com os desenvolvimentistas ou com os monetaristas? Para decifrar esse enigma, será necessário antes fazermos uma análise sobre a ação do ministro na educação do País.
Aos poucos, sem alarde, ele vem realizando uma revolução no retrógrado padrão de ensino vigente. Rápido balanço dos avanços registrados nesse setor já nos permite antecipar que o novo modelo de educação que está sendo implantado, ao final do segundo mandato de FHC, poderá vir a ser o equivalente ao que foi o programa de estabilização nos primeiros dois anos de vigência. Com uma vantagem adicional: seus reflexos na economia serão permanentes.
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado no primeiro domingo de setembro, é apenas o exemplo mais recente da uma sequência de avaliações muito bem-sucedidas até agora. O início, como não poderia deixar de ser, foi difícil, porque o ministro teve a audácia de começar a dar notas à qualidade do ensino pelo topo da pirâmide, ou seja, pelas universidades públicas e privadas. Criticado por professores, alunos, Paulo Renato não se intimidou e foi em frente.
Os resultados da avaliação do nosso ensino superior expuseram com crueza aquilo que todos já sabiam mas não tinham coragem de admitir: com as honrosas exceções de praxe, nossas faculdades nada mais são do que simples emissoras de diplomas.
O ministro Paulo Renato é um economista de bom senso e, por isso mesmo, sabe que antes de mudar uma realidade é preciso conhecê-la em todas as suas nuanças. Concluída a primeira etapa, a minuciosa radiografia do ensino brasileiro voltou-se para o 2º grau. Essa etapa também já foi concluída e seus frutos começarão a ser colhidos nos próximos dois ou três anos com a extinção gradual dos injustos vestibulares e da indústria dos cursinhos preparatórios.
A esta altura do artigo, os leitores já devem estar se perguntando por qual motivo o ministro não começou a sua revolução nos padrões do nosso falido ensino por baixo, ou seja, pela base da pirâmide. O motivo é simples: se fizesse isso, daria mais tempo e força para os interesses contrariados organizarem a resistência às mudanças necessárias.
Com isso, é claro, descuidou-se um pouco do ensino básico. Em compensação, o respaldo que a sociedade já lhe dá, em conjunto com o dos alunos e professores, tende a ampliar as possibilidades de sucesso quando ele der início à avaliação do 1º grau. Para completar sua tarefa, o ministro Paulo Renato terá pela frente mais de três anos.
Como se vê, parece que ter colocado uma das cabeças mais brilhantes de sua equipe para mexer exclusivamente com educação renderá bons dividendos a FHC, tornando o ministro Paulo Renato um legítimo símbolo do desenvolvimento sustentado e responsável do País.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
E-mail: [email protected]

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