Educação na Reforma Agrária
Educação na Reforma Agrária
João Claudio Todorov
Um ousado projeto de alfabetização e educação vai começar a mudar este ano a vida de cerca de cem mil pessoas nos assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) nas áreas de reforma agrária dos 26 estados da Federação e no Distrito Federal.
A iniciativa só foi viabilizada dentro de uma grande parceria envolvendo o Governo Federal, através dos Ministérios Extraordinário de Política Fundiária (MEPF), da Educação e Desporto (MEC) e do Trabalho (MTb), em convênio com o INCRA com o Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB) e movimentos sociais e sindicais que atuam no setor. O programa prevê, inicialmente, a formação de cinco mil monitores-educadores em todo o País para a alfabetização de jovens e adultos.
O projeto será conduzido por coordenações nacional, regionais e locais. Em verdadeiro mutirão, cem professores formarão 500 alunos de cursos universitários. Treinados, esses universitários prepararão os monitores-educadores diretamente nos assentamentos do INCRA.
O ministério e o INCRA tiveram o cuidado de não interferir e inclusive buscar o apoio das iniciativas já existentes nos estados, de programas de alfabetização no campo, envolvendo universidades e outras entidades. Não dar continuidade e apoio a esses projetos será como abandonar um edifício em construção.
O critério prioritário para a escolha dos monitores-educadores a serem treinados é que eles sejam de dentro da própria comunidade, dos assentamentos em que vão trabalhar.
A grande novidade nesse projeto é que ele será combinado com a escolarização supletiva de primeiro grau, programando, juntamente com a alfabetização de jovens e adultos, a formação dos monitores-educadores selecionados entre os assentados.
Serão criados as condições para que eles concluam o segundo grau e possam sonhar com a realização de um curso superior, com ênfase na preparação técnico-profissional nas áreas de produção e administração rural, o que até agora seria inimaginável.
Encontrar hoje pessoas que escrevam razoavelmente nos assentamentos não é uma tarefa fácil. Mas num curto espaço de tempo essa realidade será transformada.
Atualmente, menos de 20% - só um em cada cinco trabalhadores - conseguiram ultrapassar a quarta série. E num grupo de dez pessoas, no máximo uma terminou o primeiro grau. Entre as outra nove, pelo menos quatro são analfabetos ou semi-alfabetizados.
A grandeza desse projeto - além do fato de permitir que pessoas alcancem novas escalas no degrau que leva à conquista da cidadania plena - também está no envolvimento que ele vai determinar de alunos, professores e das universidades brasileiras com os problemas sociais mais graves.
Esse envolvimento garantirá a excelência do trabalho e propiciará às universidades a oportunidade ímpar para dar um sentido mais real à atuação da área de Extensão.
Será a Universidade dentro dos assentamentos de sem-terra. Frente à frente com os dois mais velhos e desafiantes problemas da Nação: a Reforma Agrária e a Educação.
- JOÃO CLAUDIO TODOROV é ex-reitor da UnB, é o coordenador do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA) - INCRA - Ministério Extraordinário de Política Fundiária.





