Estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), na última semana, revela: a educação é o segundo fator para a desigualdade entre ricos e pobres no Brasil, perdendo somente para o acesso à cultura. Com mais de 30 anos de dedicação ao magistério e autor de mais de uma dezena de livros e coleções - relativos à gramática -, o professor Reinaldo Mathias Ferreira diz que a escola pública foi transformada, nos últimos anos, em um ''grande refeitório'', deixando de lado conceitos básicos, como a redação e a leitura de autores consagrados. Em entrevista à FOLHA, Ferreira sugere adaptações para o atual sistema educacional.

Por que o ensino no Brasil funciona de maneira tão precária?
Em função do progresso dos meios de comunicação e do atraso da escola em relação a esses meios. Com isso, ainda continuamos com o aluno decorando e acompanhando pontos escritos no quadro, enquanto, fora da sala de aula, temos a internet e outras mídias que podem ser usadas. Essa defasagem entre o que a escola oferece e o que o aluno tem necessidade ocasiona o grande problema de ensino.

Muitos são aqueles que condenam a internet. Para o senhor, o universo do ''www'' pode ser considerado um vilão no processo de alfabetização?
A internet só é benéfica. No momento em que o aluno está entretido diante do computador, ele exercita a leitura e a escrita. No caso da leitura, antigamente só se lia no livro. Hoje, se lê na tela do computador. O único elemento dificultador é a linguagem paralela. É preciso que o aluno saiba sair de seu mundo de códigos na hora de fazer uma prova e que o professor sirva de suporte.

E como preparar a escola para essa geração?
Não se pode parar no tempo. Minha sugestão seria a aquisição de um número de computadores equivalente à demanda de alunos para cada sala de aula. De nada adianta termos quatro ou cinco computadores para um universo de mil crianças e adolescentes. É preciso, também, que os professores saibam manusear esses computadores, pois o que vemos, hoje, é um abismo em relação a esses conhecimentos entre alunos e professores.

Mas a revolução na educação depende apenas da tecnologia?
De uns 20 anos para cá, deixou-se de lado a leitura de obras de autores consagrados. Hoje, se cobra do aluno a leitura de um livro que muitas vezes nem o próprio professor leu. Lê-se pouco, escreve-se menos ainda. Olhando para trás, lembro que, em alguns colégios, os alunos tinham como tarefa diária uma redação, havia um caderno só para isso. O material era recolhido e a avaliação se pautava no progresso, que, caindo ou subindo, era refletido na nota. Após o surgimento de uma idéia na pedagogia que considerava invasão de privacidade o professor ler o que o aluno escrevia, os professores usaram isso de muleta para não cobrar mais a redação. Hoje, apenas algumas escolas particulares têm a redação como tarefa, aos finais de semana.

Por que o ensino público é tão inferior ao particular?
Jamais diria que a escola pública é inferior à particular. Acontece que a escola pública não tem os mecanismos necessários. Transformaram as escolas públicas no maior refeitório do mundo, onde a criança vai por causa da merenda escolar. Esse aspecto não existe nas escolas particulares. Infelizmente, as escolas públicas ficam relegadas ao próprio governo. Como as particulares têm de sobreviver, elas precisam mostrar serviço.

Um modelo a ser copiado...
As escolas integrais, que vemos em países da Europa, sem dúvidas. Os EUA desenvolvem, com êxito, modelo semelhante. Criaria, no Brasil, uma espécie de turno e contra-turno, sendo que o material ficaria na escola. Em casa, é para se descansar e interagir com a família.

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