EDUCAÇÃO ESPECIAL - Potencial dos superdotados é 'desperdiçado' no Brasil
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segunda-feira, 19 de julho de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Apresentar habilidade acima da média em uma determinada área do conhecimento, ter alto nível de criatividade e dedicar muito tempo a certa atividade. Estas são as principais características de uma criança que tem altas habilidades. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente 2,5 milhões de alunos no Brasil são superdotados. E a legislação determina que eles devem receber tratamento especial. Para tanto, em 2005, a Secretaria de Educação Especial (Seesp) implantou o NAAHS (Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação) em todos os estados brasileiros.
Porém, a grande maioria dos superdotados, por diversos motivos, não recebe atendimento diferenciado. E, sem atenção especial, o potencial deles é ''desperdiçado''. ''Existem poucas salas do NAAHS e a demanda é grande'', afirma a doutora em educação Susana Pérez, que é presidente do Conselho Brasileiro para Superdotação (Combrasd).
Nesta entrevista, ela discute a deficiência das políticas educacionais, explica como identificar a superdotação e aponta: ''As pessoas acreditam que os superdotados são aqueles que tiram nota dez em todas as disciplinas e que estão inseridos em classes sociais mais altas. São mitos que fazem os alunos com altas habilidades ficarem invisíveis.''
O que representa para um país como o Brasil, que ainda tem muito a avançar nos índices de educação, o ''desperdício'' do potencial de 2,5 milhões de alunos superdotados?
Estima-se que mais de 2,5 milhões de alunos superdotados estão nas escolas de ensino básico no Brasil. As estimativas da OMS estão baseadas em testes de QI que consideram somente a parte cognitiva. No entanto, a pessoa pode ter altas habilidades na área corporal sinestésica, na música e nas artes, não apresentando um bom rendimento nos testes de QI. Por isso, o número de superdotados é maior do que as estimativas apontam. E o potencial deles é realmente ''desperdiçado''. Basta observar onde estão os grandes cientistas, músicos e atletas do Brasil. Os talentos estão indo embora.
E como reverter isso?
Primeiro é preciso ter políticas educacionais mais eficientes. Já temos algumas, mas são muito tímidas. Existem muitos mitos em nossa sociedade e as pessoas acreditam que os superdotados são aqueles que tiram nota dez em todas as disciplinas, que estão inseridos em classes sociais mais altas. Estes mitos fazem os alunos com altas habilidades ficarem invisíveis. Além disso, temos uma falta sistêmica de formação na área. Muitos professores não identificam os alunos com altas habilidades.
Quais sinais possibilitam aos pais e professores identificar o superdotado? E qual o encaminhamento que deve ser dado ao aluno?
A pessoa com altas habilidades apresenta três grandes traços: tem habilidade acima da média em uma área específica, destacando-se dos demais colegas; dedica muito tempo às atividades que gosta e tem um nível de criatividade elevado. Quando o aluno com altas habilidades é identificado, ele deve ser encaminhado aos NAAHS, que atuam em diversas cidades, inclusive em Londrina. Em Brasília, no Rio Grande do Sul e no Paraná, o aluno pode ser encaminhado para uma sala com recurso. Uma dificuldade que a gente encontra é que existem poucas salas do NAAHS. E a demanda é grande. Outra questão é a dificuldade de acesso aos serviços oferecidos. O atendimento depende muito dos recursos da família. Por isso, é preciso haver uma interlocução entre políticas educacionais com as de assistência social, de saúde, de cultura, de trabalho.
Os professores que trabalham com crianças superdotadas têm uma formação diferenciada?
Eles deveriam ter. Para identificar o superdotado o profissional já deve ter conhecimento. Todos os Estados investem em formação específica com o objetivo de preparar o professor.
Qual o papel da família diante de um filho superdotado?
A família também precisa ser formada e informada para conseguir procurar ajuda adequada e explorar o potencial da criança, não deixando que essa habilidade se transforme em algo negativo. Muitas vezes acontece de o aluno tentar transgredir regras para ter algum desafio. E se não tiver o suporte da família pode até virar um criminoso. Nós temos o Fernandinho Beira-Mar, que certamente é uma pessoa com altas habilidades que não teve nenhum tipo de apoio. Mas a família tem que saber que a criança superdotada tem necessidades diferentes, mas não deixa de ser uma criança que precisa de limites para ser educada.
Quais as dificuldades enfrentadas pelos superdotados que estudam em turmas ''comuns''?
Se for um aluno com altas habilidades na área cognitiva ele vai se defrontrar com algumas dificuldades. O nível de complexidade apresentado não acompanha as necessidades dele. Ele fica pouco desafiado. Se a criança tiver altas habilidades na área da música ou do esporte, também pode se sentir desmotivada, pois a escola está preparada para ensinar a escrever, a ler e a fazer cálculo.
Serviço
Para conhecer as cidades onde os NAAHS atuam e ter mais informações sobre os superdotados acesse www.combrasd.com.br


