O Brasil conta hoje com 5 milhões de surdos, de acordo com o Censo realizado pelo IBGE em 2000. No mundo, são 200 milhões, segundo dados da Organização Mundial da Sa© úde (OMS). Os brasileiros contam desde 2002 com a Lei 10.436, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de Libras - Língua Brasileira de Sinais.

O problema atualmente, para o intérprete internacional de Libras Marco Antônio Arriens, é a forma como a inclusão é colocada em prática. Um exemplo é carga horária insuficiente para o aprendizado. Intérprete internacional de Libras, ele ressalta que, a exemplo de qualquer idioma, o ideal é começar a aprender a língua de sinais o mais cedo possível. O especialista esteve em Londrina para ministrar aulas no curso de pós-graduação em Libras da Faculdade Inesul e concedeu a seguinte entrevista à FOLHA.

Quais as diferenças entre o Brasil e outros países, tanto na questão do ensino como da inclusão?
É óbvio que os outros países estão mais adiantados - os europeus - porque tudo começou lá. A Suécia foi o primeiro país a reconhecer a língua dos sinais a nível oficial, em 1980. Suécia, Dinamarca, Inglaterra, França - que foi a primeira escola de surdos do mundo, estão mais adiantados. Os Estados Unidos estão bem mais adiantados, é lá a primeira universidade só para surdos do mundo, onde até o reitor é surdo.

E o Brasil?
Dentro da América Latina, é o mais adiantado. Nós fomos o primeiro país da região a reconhecer oficialmente a língua de sinais. E o Paraná é modelo para o Brasil, foi o primeiro estado a reconhecer a língua de sinais. Nós temos a vantagem de aprender com os erros de outros países.

A Libras é fácil de ser aprendida? Qualquer um pode aprender?
Como toda e qualquer língua tem a questão da plasticidade cerebral. Você aprendendo uma língua dentro da imersão linguística o mais cedo possível, você aprende mais fácil, com usuários nativos da língua. A Libras também é toda expressiva, então os tímidos sofrem mais.

A média para aprender o básico seriam dois a três anos no mínimo, de convivência com surdos, inclusive extraclasse. Por isso que é o cúmulo o governo implantar dentro das faculdades e universidades uma carga horária de 60 horas/aula, ou 120. É impossível aprender uma língua em 60 horas.

Qual é o melhor momento para uma criança ou uma pessoa que fica surda ter contato com essa língua?
O melhor é o mais cedo possível. Descobriu a surdez, já faz imersão linguística, como nós chamamos. Já entra em contato com surdos adultos, usuários da Libras natural, porque aí a pessoa será bilíngue. Ela terá acesso ao português com a família, com a fono, mas como segunda língua. Se eu utilizar a língua de sinais como primeira língua, a criança vai aprender a outra muito mais fácil.

E a respeito da política do inclusão do Ministério da Educação (MEC), qual sua opinião?
Da forma que está sendo feita, a inclusão está sendo vergonhosa. Eles estão chamando de inclusão a presença do intérprete em sala de aula, quando existe um intérprete. Sem contar que esse intérprete não é um especialista, é um generalista. Não temos ainda no Brasil intérpretes só para matemática, filosofia, medicina. Qual é o ser humano que consegue dominar todas essas áreas e passar para um surdo?

O governo imitou a ideia e não a metodologia de implantação da inclusão. Tem que ter a preparação do corpo docente, do corpo discente, oferecer cursos de língua de sinais na escola, preparar esse surdo para sair da escola especial e entrar no ensino regular, preparar os alunos para receber esse colega.

A inclusão para mim tem o lado bom quando quebra a segregação, quebra o isolamento, mas ela tem um lado ruim quando não respeita verdadeiramente a diferença e não oferece condições para que esse surdo seja atendido como deve. A presença do intérprete da sala de aula é uma falsa representação de inclusão.

Os surdos estão querendo o retorno da escola especial ou no mínimo classes especiais dentro da escola regular. Classes onde haja professores que dominem a Libras, que sejam intérpretes, e professores que ensinem as disciplinas de forma visual.

E existem esses profissionais?
Existem, estão começando a se formar justamente nos cursos de pós-graduação. A tendência é voltarmos a criar uma escola especial para surdos, porém agora interfaciada com a escola regular.

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