Educação em vez de usinas de lixo
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de outubro de 2003
Daniel Steidle 
''Horrível! Com vontade de vomitar.'' Foram as palavras da procuradora do Trabalho, Margaret Matos de Carvalho, depois de visitar a usina de reciclagem de lixo em Arapongas. Depoimento feito no dia 7 de outubro quando a procuradora proferiu palestra na sede da Soame (Sociedade Ambiental, Cultural e Educacional) no Fórum Municipal Lixo & Cidadania de Rolândia. Ainda, afirmou a procuradora, ''em vez de se gastar dinheiro com usinas deveria se investir em educação, numa conscientização permanente..., as usinas fazem o município se acomodar''.
Em Rolândia, município candidato a ganhar uma usina de lixo, o resultado da campanha de reciclagem de lixo não agrada, segundo o prefeito Eurides Moura. Foram inúmeros panfletos e modelos que não conseguiram sensibilizar a população. De acordo com a associação dos recicladores de lixo em Rolândia, o resultado da coleta seletiva tem sido melhor nos bairros pobres da cidade onde o envolvimento das famílias é direto e não delegado a terceiros. Fato interessante que deveria ser trabalhado.
Porém, o ''lento'' processo educativo acaba ficando para o segundo plano, porque vive-se em ''situações de emergência''. Assim foi na época do lixão de Rolândia e é agora com o aterro de lixo precocemente saturado. A emergência acaba sendo o argumento de políticos e empresários para a implantação de ''tecnologias de 1º mundo''. No entanto, o que deveria ser solução acaba se tornando uma nova emergência e cria-se um ciclo vicioso. Poucos ganham com isso e muitos perdem. A população acaba não se envolvendo ativamente e problemas ambientais, como o lixo, crescem.
Sair desse ciclo pernicioso requer iniciativas pequenas e contínuas de ''baixo para cima''. Informações valiosas da nossa realidade, como as informações dos que vivem do lixo, podem fazer com que a sociedade se mobilize sem necessidade de panfletagem. Que sejam criados fóruns autênticos do lixo, onde os catadores de lixo e a população tomem as iniciativas. Onde iniciativas, como Incubadoras de Cooperativas Populares e o Movimento Nacional dos Catadores, possam ser melhor conhecidos. Em vez de empurrar soluções goela abaixo, as classes política e empresarial poderiam ser de fundamental importância neste cenário, tornando possível o intercâmbio de conhecimento.
Acreditar no poder da cidadania significa eleger representantes que, em vez de gastar dinheiro com obras públicas ''politicamente corretas'', investem na educação. Educação, visando capacitar o indivíduo a participar na vida comunitária.
DANIEL STEIDLE é ambientalista em Rolândia e estuda mestrado de geografia, meio ambiente e desenvolvimento na Universidade Estadual de Londrina


