Comandar a pasta da educação em um município menos populoso é tarefa mais fácil, em relação às grandes metrópoles? Ledo engano. Secretária Municipal da Educação, em Cambé, Cleusa Forastieri acredita que não. Com décadas de dedicação à área, ela é autora, ao lado de sua equipe, de um projeto voltado a escutar os professores, tratar de sua saúde vocal - em parceria com uma universidade de Londrina - entre outras iniciativas.

Na entrevista, Cleusa ressalta a importância da capacitação do profissional da área e hasteia a bandeira do ensino integral, realidade em duas escolas da cidade.

Crianças da quarta série acompanham e participam do ''Folha Cidadania'', em Cambé. Qual o saldo dessa dobradinha?
O melhor possível. Desenvolvemos os conteúdos de forma gradativa, isto é, trazemos primeiramente o jornal com um tema que as crianças se identifiquem e, aos poucos, vamos despertando essa criança para os temas da atualidade, que as circundam. O grande saldo fica para a quinta série em diante, com alunos com poder de argumentação fruto da leitura dos conteúdos. Ao trazer a educação, a Folha Cidadania mostra não somente o que é realizado em sala de aula como demais iniciativas pedagógicas, por parte das escolas.

Qual a situação hoje, da educação, em Cambé?
Não temos um sistema municipal de educação e sim uma rede, e pertencemos a um sistema estadual de educação. Temos procurado, com os três departamentos (pedagógico, de assistência ao educando e administrativo), trabalhar para a melhoria da qualidade de ensino. Logicamente, temos o problema social, uma vez que nossos alunos são de periferia, e tentamos melhorar a qualidade de ensino.

Por onde começar?
Primeiramente, tentando intensificar a qualificação do professor. Se você os capacita continuadamente, ele vai ter mais visão e mais condições de dar suporte aos alunos. Todos os dias, na Secretaria de Educação, temos capacitação: os cursos acontecem à noite, aos sábados de manhã e, logo depois das aulas, às 17h30, para que muitos professores que já estão nas escolas não tenham que fazer duas viagens.

E a adesão, tem sido boa?
Com esses horários alternativos, sentimos que a participação cresceu.

A Secretaria mantém um projeto de ''escuta'' voltado aos professores. Os professores também precisam desse suporte, além da formação?
Sim. Funciona como um desabafo dos professores. Por mais que tenhamos os encontros por séries, com os professores, eles precisam de um momento só deles. Para tanto, lançamos mão de uma equipe multidisciplinar, com psicólogos e fonoaudiólogos.

Do que se trata o projeto Saúde Vocal?
Fizemos um levantamento com um questionário que perguntava se os professores de Cambé tinham alguma queixa em relação à voz. Levantados os problemas, firmamos uma parceria com a Unopar, que nos cede duas estagiárias e uma fonoaudióloga. A profissional traz, a esses professores, os tipos de cuidados e, principalmente, a prevenção.

E a contrapartida aos alunos?
Quando vemos que o aluno apresenta algumas dificuldades, procuramos trabalhá-las logo no início do ano. Procuramos suprimir essa defasagem paralelamente ao ano letivo, não deixando para depois esse suporte. Outra luta que temos é a questão do período integral. Os alunos querem, os pais querem, nós queremos...

E por que não temos?
Por conta dos recursos. Não para manter os alunos, há até locais ociosos. O que nos dificulta é a questão dos recursos humanos, ou seja, o pagamento, o atendimento. Em Cambé, estamos no limite de nosso orçamento e fazemos o possível. Temos duas escolas em período integral e, neste ano, reformamos a escola do Jardim Santos Dumont e vamos tentar dar início ao período aos poucos, ao menos voltado aos alunos mais carentes.

No paralelo cidade grande versus cidade pequena, não seria mais fácil ter o comando da pasta da educação de uma cidade menos populosa, como Cambé?
Não há diferenças. A cidade grande tem mais problemas, mas também tem mais recursos. O gestor, hoje, tem que entender de orçamento, de licitação, dos recursos, não somente de determinadas áreas, como a pedagógica. Gerir uma pasta de educação requer estar por dentro de todos esses tópicos, esteja esse gestor em um município grande ou pequeno.

O trabalho em Cambé é pautado em consultas constantes aos professores e no emprego de avaliações. Como discernir críticas negativas de sugestões que venham a somar?
Os cursos voltados aos professores em horários alternados, por exemplo, vieram de sugestões de nossa avaliação de 2006. Tentamos implementar o que há de positivo e pôr em prática. O que não é, que não soma, é descartado. A profissão de professor não é para deixar ninguém rico.

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