É muito difícil para as pessoas em geral a percepção das transformações políticas, econômicas, sociais, científicas e tecnológicas que ocorrem ao seu redor, e que acabam por transformar profundamente suas vidas. Sempre foi assim, mas deixando para trás o processo milenar de evolução do homem, tomemos como ponto de partida para a análise desse pequeno artigo a Revolução Industrial iniciada na Inglaterra no século XVIII. Isso porque a partir desse complexo fenômeno foram desencadeados progressos incríveis na indústria, nos meios de transporte, na comunicação, na ciência e na tecnologia, que serviram de patamar às rapidíssimas transformações que ora assistimos.
Evidentemente, todo o progresso tem seu preço, e a melhoria considerável de vida, bem estar e conforto que a Revolução Industrial desencadeou para a humanidade, e que hoje não cessa de se acelerar, trouxe também consigo uma distribuição desigual de benefícios com relação a sociedade internacional, e dentro de cada sociedade em particular. Daí o surgimento da classificação de países desenvolvidos e subdesenvolvidos, sendo que equivocadamente os segundos costumam aparecer como vítimas dos primeiros.
Como explicou porém Jean-François Revel no seu prefácio à obra de Carlos Rangel, ‘‘O Ocidente e o Terceiro Mundo’’: ‘‘Há dois séculos, sem o saber, o mundo inteiro era subdesenvolvido. O que hoje denominamos subdesenvolvimento era o estado natural da humanidade’’.
Essa visão mais ampla dá a nós brasileiros, que já começamos a desfrutar de um desenvolvimento razoável, acelerado recentemente pela economia estável, a esperança de um progresso em que a inevitável distribuição desigual de benefícios seja atenuada, minorando-se assim as diferenças sociais ainda existentes no país.
Com isso não se quer escamotear a questão dos nossos desafios, iniciados com certeza na data do descobrimento. Eles existem e devem ser encarados de frente para poder ser superados. E dois dos nossos grandes desafios são trabalho e educação, sendo que agora mais do que nunca um está cada vez mais ligado ao outro. Com relação ao assunto deixarei de lado a análise governamental, em que pese estar consciente das responsabilidades do governo no tocante a políticas de emprego e educação, e lançarei um rápido olhar pela sociedade civil.
Todos sabem que vivemos na Idade Eletrônica, onde robôs, computadores, maquinário sofisticado começam a substituir o homem no que tange ao trabalho manual, repetitivo ou perigoso. Na Revolução Industrial isso ocorreu com máquinas mais simples, e o tear mecânico provocou intenso pânico entre os operários que temiam perder seus empregos. Como resposta ao seu desespero eles quebravam as máquinas.
De certo modo, a revolta do homem contra a máquina ainda acontece. Aqui mesmo em Londrina observo a insegurança dos trocadores de ônibus que estão para ser desalojados dos empregos por catracas eletrônicas. Mas não colocar as catracas equivaleria num grande escritório a não utilizar computadores para poder manter obsoletos datilógrafos.
A questão, portanto, não é tentar evitar a inevitável modernização, mas dar chance de outro tipo de emprego a trocadores e datilógrafos. E isso se faz não só através do governo mas da sociedade como um todo, como aconteceu em sociedades mais avançadas do que a nossa tais como os Estados Unidos e o Japão.
Acontece, dirão alguns, que nestes dois países a educação também está mais evoluída, o que permite melhores empregos e grande progresso econômico. Isso é verdade. E a qualidade de nossa educação precisa de um grande salto qualitativo, dos primeiros graus às universidades. Mas é necessário também que mude a mentalidade dos empregadores em geral.
Digo isso porque cada vez mais os pais se sacrificam para dar educação aos filhos, mas hoje a maioria destes têm grandes dificuldades de se empregar mesmo depois de receber o diploma do curso superior. E isto se deve basicamente ao seguinte: a educação que o indivíduo recebe costuma ser de má qualidade. Ele é diplomado mas não habilitado a enfrentar o mercado de trabalho. Por cauda disto as organizações passam a exigir cada vez mais atestados de conhecimento e experiência para o indivíduo que pleiteia um emprego. Entretanto, isto está se tornando exagerado, e muitas vezes os conhecimentos requeridos não são necessários naquele tipo de trabalho. Para piorar, mesmo que faça frente às exigências com referência a cursos de pós-graduação, conhecimento de línguas, computação, etc., sempre se esbarrará nas credenciais mais importantes para se conseguir emprego no país do dá-se um jeito: o relacionamento e o pistolão. Em concursos públicos ou na iniciativa privada, é a mesma coisa. E muito mais por causa disso, do que por conta da globalização ou do progresso tecnológico, uma geração de classe média de nível universitário está sendo sacrificada e desperdiçada. Que lembrem disso principalmente nossos empresários quando discursarem sobre trabalho e educação.

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