EDUCAÇÃO E FAMÍLIA - Saudosismo não funciona
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domingo, 02 de dezembro de 2007
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
É inegável: a família sofreu grandes modificações em sua estrutura nos últimos anos. Pais cada vez mais ocupados, crianças tidas como ''bonitinhas'' e de ''gênio forte'' se convertendo, por conta da permissividade, em jovens sem regras e objetivos. Para a psicóloga londrinense - doutora em Educação pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) -, Solange Beggiato Mezzaroba, a família tem que assumir seu papel e, por meio de um conjunto de valores básicos e regras, tomar a dianteira no processo de formação de jovens e crianças. O quanto antes.
Com todo o processo de reestruturação da sociedade, cabe à família a responsabilidade sobre seus filhos?
Sim. A família sofreu transformações e hoje ela tem diferentes conformações, como mães ou pais tomando conta sozinhos de filhos, entre outros aspectos. De qualquer modo, não importa a forma de estruturação da família, cabe à ela, sim, educar e transmitir valores, culturas e formas de se manter na sociedade.
Mas o modelo não está ''quebrado''? A família está cumprindo seu papel?
Acredito que é dada muita responsabilidade à família. O primeiro nível de socialização da criança é a família. Depois, na escola, e da adolescência em diante, há outras esferas que exercem mais influência que a própria família. É uma carga muito grande que é conferida à família.
Quanto às influências, elas são evitáveis?
Não. Os pais não podem prender seus filhos dentro de casa. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe uma tendência que são os ''schoolings''. Para evitar os perigos, por conta dos assassinatos que ocorrem nas escolas americanas, os pais puxaram para si a educação acadêmica de seus filhos. O processo acadêmico se dá em casa, e, posteriormente, a criança faz o exame de equivalência no Estado. Podem-se evitar algumas coisas, mas se traz o prejuízo em uma série de aspectos. Não adianta: quando a pessoa sai de casa, ela vai transitar nessas diferentes esferas. Então, tendo um bom alicerce, logo na primeira infância, os efeitos dessa influência podem ser minimizamos.
O saudosismo funciona?
Não. A geração passada sempre acha a geração atual rebelde, desregrada, ameaçadora. Quando eu era jovem, nos tempos dos Beatles e de Elvis Presley, era comum ouvir de meu pai que a banda e o cantor não faziam música, que eram o ''fim do mundo''. Hoje, ambos são cult. Nos dias atuais, esses pais, que foram filhos criados no âmbito da severidade e da rigidez, descontentes com a educação que tiveram, partiram para o lado oposto: tornaram-se mais permissivos, fazendo mais concessões. Somamos a falta de tempo e temos os ingredientes perfeitos para a criança e o adolescente ''fazer tudo''. A vara, que estava vergada de um lado, vergou-se para outro.
E qual a solução? Como combater essa permissividade?
O equilíbrio. Enquanto a criança é pequena, tudo é bonitinho, visto como auto-afirmação, gênio forte ou demais adjetivos. Os pais não podem esquecer que esses pequenos ''bonitinhos'' crescem e se transformam em adolescentes sem regras, sem limites. Na prática, prefiro falar em educação na colocação de regras e em como observá-las. É o conjunto de regras que forma o comportamento da criança.
Certo, mas as regras não geram um certo conformismo?
Não se trata de conformismo. Tudo é discutível. Alguns valores são importantes e têm de ser preservados: o respeito à vida, ao próximo, a questão ambiental, tão debatida nos dias atuais, são regras básicas e fundamentais. Fora isso, acredito que cada família deva elaborar seu conjunto de valores. Observar as regras é uma construção que vem desde criança.
Após a infância, não há solução? Afinal, comumente ouvimos: ''fulano ou sicrano não têm mais jeito''.
Não seria educadora ou psicóloga se não acreditasse na possibilidade do ser humano sempre modificar. Quando a questão chega à delinquência, por exemplo, o trabalho não é somente com o adolescente ou pré-adolescente. A família vai ter que se envolver, para mudar seus hábitos. É fato: é muito mais difícil se implementar mudanças, em um jovem de 14, 15 anos, do que se dermos início na infância.


