A média dos alunos de escolas públicas das pequenas cidades do Paraná no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ficou abaixo de 3,5 na prova objetiva - patamar inferior à média brasileira. Nas cidades maiores, a nota sobe para 4, e, nas escolas particulares, para 5, aproximadamente. Os números indicam que os alunos paranaenses terminam o colegial sem aprender de 50% a 65% de português e de matemática. Em entrevista à FOLHA, a superintendente da Secretaria Estadual de Educação, Yvelise Arco-Verde, reconhece os limites do sistema.

O rendimento dos alunos, abaixo de 50%, pode ser considerado positivo?
Os sistemas de avaliação do Ministério da Educação utilizam índices internacionais e um padrão alto de pontuação. No Brasil temos médias bem abaixo e sabemos que isso decorre de um grave problema educacional. O que é bastante positivo é que os alunos da escola pública, que normalmente paravam nas primeiras séries, hoje têm uma expectativa concreta de entrar para o ensino superior.

Em que medida a insuficiência de ensino prejudica a vida dos alunos?
Se o aluno chega com deficiências, significa que fez um processo educacional sofrível, principalmente em língua portuguesa, em que ele precisa dominar a leitura e a escrita. O aluno precisa saber interpretar o que está lendo em história, geografia, em ciências e até em matemática. Como professora universitária, percebo que as mesmas deficiências também estão na universidade. É um problema geral do sistema educacional, que leva à população um conhecimento insuficiente para uma melhor leitura do mundo.

Qual sua análise sobre as diferenças de desempenho entre alunos das escolas públicas e privadas, e das cidades pequenas em relação aos centros maiores?
Se na capital temos respostas mais adequadas, devemos avaliar também o tipo de questão apresentada. No Brasil inteiro utilizamos o padrão urbano-industrial. Então o aluno que tem as informações dos grandes centros chega com vantagem nesse tipo de prova. Quanto ao fato da pontuação da escola pública ser mais baixa que o da escola particular, é importante notar que, se a gente pegar a relação das escolas públicas em todo o Brasil, o Paraná é que fica com os índices mais altos.

Ainda sobre as desigualdades cidade/campo, como a senhora avalia a extinção das escolas de zona rural nos anos 80 e 90?
Foi uma política altamente equivocada. Deveríamos ter mantido essas escolas, mesmo que multisseriadas - um professor para várias disciplinas. Hoje os educadores se penalizam pela transferência da escola da zona rural pelo transporte para os centros urbanos. O aluno que é retirado da sua comunidade perde todas as suas tradições e vai buscar referencial nos centros urbanos. Nesse processo, as localidades rurais acabam morrendo. Estamos buscando reverter essa política atualmente, mas é difícil porque houve a destruição de toda uma rede que tínhamos no campo.

O que o poder público, família, alunos e professores podem fazer para ajudar a melhorar o ensino?
Acho que o poder público deve priorizar a educação como política pública e dar a ela um sentido civilizatório. A participação dos pais é fundamental, porque muitas vezes eles largam o filho na mão das escolas e transferem tarefas que são da família. A formação dos valores das crianças é uma tarefa que cabe às famílias, Por fim, diria aos alunos que precisam de fato se empenhar nesse processo e aí entra o papel do professor, que precisa mostrar o valor e a função da escola na sociedade.

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