Educação como pesquisa
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de agosto de 2013
Luís Miguel Luzio dos Santos 
A sociedade pós-industrial elegeu o conhecimento como o principal mecanismo de desenvolvimento socioeconômico do século 21, mas esse desafio só será alcançado por meio de uma concentração de esforços na promoção do ensino e da pesquisa, o que se traduz em inovação.
Ainda que tenhamos avançado 110% de 2000 a 2010 em matrículas no ensino superior, apenas 13% dos jovens em idade escolar estão na faculdade e somente 9,3% da população, com mais de 24 anos, possui ensino superior completo, contra 51% do Canadá, 46% de Israel, 45% do Japão e 25% do Chile. Esses indicadores refletem-se diretamente no nível de renda, já que no Brasil quem tem diploma universitário ganha em média 167% mais do que aqueles que concluíram apenas o ensino médio.
Possuímos atualmente cerca de 517 mil profissionais com curso de mestrado e 188 mil com doutorado. Número reduzido diante das nossas necessidades e que nos condena a meros reprodutores de informação e baixa produção de conhecimento. Isso fica evidente na quantidade de patentes brasileiras apresentadas na Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) que não ultrapassa 442 patentes/ano, enquanto os Estados Unidos lideram com 44.855, o Japão no segundo lugar com 32.156, a China com 12.337 e a Coreia do Sul com 9.686. Esses resultados são reflexo direto dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, que no caso do Brasil não ultrapassa 1,4% do PIB, enquanto a Alemanha investe 2,8%, os Estados Unidos 2,9% e Israel lidera com 4,0%.
O binômio educação e pesquisa, que se traduz em inovação, é a fórmula para que um país possa-se desenvolver e avançar rumo a um futuro promissor. Porém, a nossa realidade é temerosa. A educação fundamental é precária, o ensino superior limita-se a reproduzir conhecimentos, num preocupante desprezo pela inovação e pela reflexão crítica, o que faz com que boa parte da população se transforme em massa de manobra das elites dominantes, numa crônica e perversa relação de subserviência e colonialismo.
Pedro Demo, pensador brasileiro da área de educação, defende que o aprendizado, em todos os níveis, aconteça por meio da prática da pesquisa. A chave do aprendizado está na curiosidade, na problematização da realidade. E é dentro desse ambiente que se deve promover o aluno a patamares mais elevados de formação. O esforço deverá concentrar-se em superar a simples reprodução do conhecimento, pelo desafio de saber construí-lo aprender a aprender - o que exige mudanças profundas, tanto nos recursos disponibilizados, como nos métodos pedagógicos, mais voltados para estimular o questionamento e o debate do que dar receitas prontas.
Porém, é essencial não perder de vista que o conhecimento é apenas meio e que para encontrar o seu fim tem que se orientar pela ética dos fins. A característica emancipatória da educação precisa da pesquisa como método formativo, já que conhecer é a forma mais eficiente de intervir, além de ser o alimento privilegiado para o exercício da cidadania e infraestrutura para a construção de uma sociedade mais responsável, equitativa e solidária. Outra questão fundamental a ser colocada é: que tipo de inovação devemos dar prioridade? Quem deverão ser os principais beneficiados? As respostas a estas questões terão de considerar a relação inalienável entre ciência, ética e responsabilidade socioambiental, conseguindo articular ciência com consciência e razão com sensibilidade.
As escolhas científicas não são neutras, como muitas vezes nos querem fazer ver, pressupõem valores, visões de mundo e, principalmente, o estabelecimento de prioridades, o que leva a uma disputa no campo ético, entre o plano das necessidades sociais e da rentabilidade econômica. A inovação que precisamos deverá ser capaz de ultrapassar a centralidade na maximização do lucro e avançar para onde as necessidades se fazem mais urgentes.


