Educação: a revolução necessária
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de maio de 2013
Luís Miguel Luzio dos Santos 
Entre os inúmeros problemas e barreiras que afetam o nosso País, nenhum é mais urgente e estratégico do que a questão educacional. É consenso que não poderemos falar em justiça social sem equiparar as oportunidades de desenvolvimento de nossas crianças e jovens e que isso só será efetivado por meio de uma educação pública de qualidade.
Ainda que tenhamos tido alguns avanços nos últimos anos, os desafios continuam imensos. Em 2000 a nossa escolaridade média era de 5 anos, em 2011 ascendeu para 7,3 anos, mas continuamos a léguas dos 14 anos dos sul-coreanos. Avançamos também em número de matrículas no ensino fundamental, pulando de 85% em 2000 para os atuais 98%, mas ainda temos 3,6 milhões de crianças e adolescentes fora da escola (mais do que a população do Uruguai). O analfabetismo em adultos patina na casa dos 9%, e entre os considerados alfabetizados, 30% não conseguem interpretar um texto convenientemente ou fazer operações aritméticas elementares.
Quando as análises são qualitativas os resultados são ainda mais preocupantes. Entre 65 países que realizaram o exame Pisa (Programme for International Student Assessment), que avalia a qualidade do aprendizado dos alunos na faixa dos 15 anos, os estudantes brasileiros atingiram 412 pontos na prova de leitura e 405 na de ciências, ocupando a 53ªcolocação em ambas as matérias, já em matemática somamos 386 pontos, ocupando a 57ªposição. É bom lembrar que a média entre os países mais desenvolvidos é de 490 pontos.
Ainda que o problema da educação não se limite à falta de recursos financeiros, a possibilidade dos investimentos dobrarem para 10% do PIB - proposta que tramita no Congresso Nacional - poderá representar uma verdadeira revolução no ensino. Esse aporte adicional de recursos possibilitará a valorização da carreira de professor, aprimorando sua formação e atraindo talentos que hoje se esvaem para áreas mais prestigiadas. As escolas em período integral também poderão se tornar realidade, com um especial potencial transformador junto às populações de maior vulnerabilidade social, haja vista que 50% dos jovens entre 15 e 17 anos, com renda per capita inferior a R$ 77,75/mês, estão fora da escola e do trabalho, tornando-se presas fáceis para o narcotráfico, dependência química ou gravidez precoce.
As metodologias de ensino são um desafio à parte. Precisamos substituir o atual modelo que privilegia a quantidade de matéria, grande parte das vezes descontextualizada e desarticulada entre si, por um método que faça sentido para o aluno e que se sintonize com a sua realidade, despertando a curiosidade e a vontade de aprender. Paulo Freire, o grande educador brasileiro, definiu como o processo contextualização, reflexão e vivência é algo muito distante das atuais experiências educacionais, o que se reflete nos elevados índices de absenteísmo e abandono escolar.
O pacto pela educação obriga a uma mobilização coletiva, que envolva associações civis, universidades, empresas e principalmente a comunidade de pais, num processo de corresponsabilidade pelo futuro de nossas crianças. A escola deve ultrapassar as fronteiras tradicionais e transformar-se em centro de cidadania de toda a comunidade. Isso poderá ser efetivado por meio de um calendário anual de atividades, que inclua manifestações culturais, torneios esportivos, festivais, oficinas, dinamização das bibliotecas, sessões de cinema, teatro, saraus, além de um espaço privilegiado para se discutirem os problemas do bairro, da cidade e do país. Em suma, é preciso revolucionar a escola, transformando-a no principal centro de convivência e de sociabilidade de cada comunidade, um verdadeiro farol que irradia cultura e conhecimento e contamina todos os espaços ao seu redor.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é doutor em Ciências Sociais e professor do departamento de
Administração da Universidade Estadual de Londrina


