Educação a distância
Haroldo MarçalNo limear do terceiro milênio, o mundo se transforma de modo bastante acelerado, o mercado de trabalho se torna cada vez mais exigente e competitivo, as relações de trabalho cada vez mais complexas, as disparidades econômicas e sociais amentam e os indivíduos estão sujeitos às contingências do meio.
A informação, o conhecimento e a criatividade são imperativos das novas relações de trabalho e a instituição escola precisa estar atenta a isso. É preciso criar mecanismos de atendimento e de resgate de uma clientela específica da sociedade, que não teve o devido atendimento escolar na idade própria ou precisa conciliar condições de trabalho e condições de estudo. É preciso oferecer a esta população oportunidade de desenvolver seus estudos em ritmo próprio, em tempo e local que lhe é adequado, sem a necessidade de frequência obrigatória à escola. É preciso incentivar a construção independente do conhecimento e a educação permanente.
A educação é direito inalienável de todos e ninguém pode ser excluído dela por dificuldades de qualquer natureza, a não ser por opção própria. Cabe ao Estado, entretanto, criar vias alternativas para estimular a população a elevar seu padrão de dignidade e praticar o exercício pleno da cidadania, e isto só se faz possível viabilizando o acesso e a continuidade de estudos a toda a população.
Nesse contexto, o ensino a distância se constitui numa metodologia flexível às condições dos alunos, com maior respeito ao seu ritmo de aprendizagem e oferta de material didático e equipamentos para auto-aprendizagem. A avaliação do aluno incide, exclusivamente, no que ele aprendeu, independente do tempo que passou estudante ou, como e onde aprendeu.
Os recursos tecnológicos podem e devem ser cada vez mais utilizados para minimizar as limitações e as dificuldades daqueles que por razões particulares, sociais ou econômicas, não tiveram acesso à escola convencional. O ensino a distância é um processo viável de democratização da educação, pois oferece às demandas populacionais uma forma de educação que lhes permite aprender a aprender através do estudo independente e orientado.
Utilizar-se da metodologia de ensino a distância não significa aligeirar o processo de aprendizagem ou simplificar as competências e habilidades a ser adquiridas pelos alunos no ensino presencial. Os objetivos e as diretrizes curriculares fixadas em nível nacional para cada curso ou modalidade de ensino devem ser obedecidos igualmente no ensino presencial e no ensino a distância. O referencial teórico-prático para a aquisição de competências, habilidades e atitudes que promovam o desenvolvimento pleno da pessoa, o exercício da cidadania, a qualificação para o trabalho e a autonomia para continuar aprendendo é o mesmo nas duas formas de ensino.
Ensinar a distância significa abrir mão de métodos tradicionais de ensino em favor de novas formas que exigem esforço e adaptação, com investimentos em infra-estrutura de comunicação e informação, formação de equipes multidisciplinares, ampliação do acervo das bibliotecas, de modo a incorporar materiais diversificados de leitura e pesquisa, criação de mecanismos de acompanhamento e avaliação das ações desenvolvidas, entre outros. Por parte dos alunos, exige dedicação, capacidade de controlar o tempo de estudo, e pesquisa.
Especialistas como Michael Moore, da Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA) sugerem que grandes mudanças serão feitas na entrada do próximo milênio, e que a principal delas será a nova concepção de educação como um processo cuja ênfase estará na aprendizagem. A metodologia do ensino a distância se constitui, a nosso ver, num atalho que vai possibilitar ao indivíduo a construção independente da sua própria aprendizagem, pela introdução de equipamentos tecnológicos modernos na educação.
O uso de tecnologias de comunicação e informação está a serviço das interações no ensino a distância, mas não substituiu a relação interpessoal direta entre os envolvidos no processo. Há que se garantir espaços para o trabalho conjunto, a atuação no coletivo, a troca de experiências e a apropriação dos conhecimentos que se constroem coletivamente.
O uso das novas tecnologias torna mais fácil e eficaz a superação das distâncias, mais intensa e efetiva a interação professor-aluno, mais educativo o processo de ensino-aprendizagem, mais verdadeira e veloz a conquista de autonomia pelo aluno. Nem sempre, porém, será possível sua utilização, dadas as características da clientela (alunos sem acesso a linhas telefônicas, a computadores etc.). Cabe à instituição desenhar um projeto que encontre o aluno onde ele estiver, oferecendo-lhe todas as possibilidades de acompanhamento e orientação, permitindo-lhe elaborar conhecimentos, adquirir hábitos, habilidades e atitudes, de acordo com suas possibilidades.
A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional atribui ao Poder Público o papel de ‘‘incentivar o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e da educação continuada’’, e o Conselho Estadual de Educação do Paraná acaba de aprovar normas regulamentando a sua oferta no Estado, com a convicção de que o mesmo se constitui numa estratégia democratizante do acesso da população aos meios de aprendizagem, na busca permanente do seu desenvolvimento e preparo para o exercício da cidadania e da vida produtiva.
- HAROLDO MARÇAL é professor e presidente do Conselho Estadual de Educação do Paraná, em Curitiba

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