EDUCAÇÃO - Um convite à superficialidade
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domingo, 21 de dezembro de 2014
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
A prova de redação do vestibular da mais importante universidade estadual do Paraná passou por mudanças nos últimos anos. Seguindo o modelo da prova da Universidade Federal (UFPR), a redação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), desde o concurso de 2012, passou a apresentar de duas a quatro propostas para que sejam produzidos textos curtos, de no máximo 12 linhas.
Na prova do vestibular 2015, aplicada no final de novembro, os candidatos se depararam com três desafios: transformar uma entrevista em discurso indireto; continuar uma narrativa criativa de um determinado autor; e desenvolver um texto de oito a 10 linhas a partir da pergunta "existe vida fora da Terra?".
No dia seguinte à prova, a coordenadora da Coordenadoria de Processos Seletivos (Cops), a professora de língua portuguesa Cristina Bulhões Simon, disse à FOLHA que esse modelo melhorou e tornou mais criativos os textos da redação, enquanto a tradicional dissertação, que a universidade propunha anteriormente, seria "eminentemente escolar", "muito treinável" e "previsível".
Carlos Fortes, um dos professores de redação mais conhecidos e respeitados de Londrina, discorda. Em entrevista à FOLHA, ele argumentou que o modelo atual da redação da UEL não permite avaliar a capacidade de pensar do candidato e vai na contramão de concursos de importantes universidades brasileiras e do interesse cada vez maior pelo texto que a internet e novas ferramentas de comunicação vêm alimentando.
Qual a avaliação do senhor da redação da UEL deste ano?
Uma avaliação bem feita, bem técnica não é uma avaliação muito favorável. O modelo adotado pela UEL já há algum tempo, alguns anos, tem se orientado pelo critério facilidade para corrigir, ou ganho de tempo ou economia de custos para correção. Porque, quer queira, quer não, avalia-se a capacidade do estudante pensar pela redação temática, pela redação em que o aluno, o estudante tem condições de mostrar que pensa. E não (por meio de) uma sequência de situações em que o estudante simplesmente tenta produzir algo escrito que possa ser avaliado em termos de gramática. O nosso jovem está pensando? O nosso estudante está pensando melhor? O estudante de 17 anos da era moderna, ele pensa melhor do que o estudante de 30 anos atrás? O modelo de redação da UEL não permite essa avaliação, pelo contrário. O modelo de redação da UEL ajuda a reduzir a capacidade de reflexão do estudante, esses modelos que ela impõe, três textos, em que ele opera com texto alheio e não produz o próprio.
O que o senhor acha do argumento da coordenadora da Cops, de que esse modelo estimula a criatividade enquanto a dissertação seria "treinável", "previsível"?
A diferença é técnica, por isso que eu falei, não é uma questão simples, se você entende que a redação dissertativa é exatamente um texto em que o aluno mostra a maneira com que ele encara problemas, discute problemas. Agora, se por acaso, há uma previsibilidade, a previsibilidade ocorre principalmente quando se pergunta se existe vida fora da Terra. É muito mais previsível a resposta a essa proposta do que previsível era quando se propunha um tema para reflexão crítica em 25, 30 linhas. Se há previsibilidade, existe no modelo adotado hoje, e não naquele. Naquele, o que era necessário era exatamente competência de uma banca que fosse capaz de perceber textos bem escritos, argumentos bem elaborados, e discernir de outro texto superficial, situação em que se percebia muito bem quem eram os alunos que liam bem, alunos que discutiam o que liam, alunos que realmente liam jornais e revistas e que discutiam isso, e alunos que sentavam para treinar a escrita crítica, analítica. Quanto à criatividade, o problema também é técnico. A criatividade fica muito bem para concursos de publicidade, fica muito bem para concursos do Leão de Cannes, quem é que fez a melhor propaganda, quem foi mais criativo. Criatividade não é para todo mundo. Uma universidade não pode impor ao aluno comum a competência criativa com linguagem. Até porque muito vestibulando pode ser muito criativo criando HQs, charges, mas a universidade não lhe abre essa possibilidade, de ser criativo nessa linguagem. Tem muito aluno, vestibulando da UEL, que é muito criativo com som, ou pode ser muito bom com rima, é um "rappeiro" de primeira, um grande "rappeiro", mas a universidade não tem permitido isso. As universidades não permitem essa criatividade. Agora, exigem essa criatividade no texto escrito narrativo. Por quê? Não é todo aluno que tem talento para esse tipo de criatividade. Pode aparecer como opção, mas não como imposição.
Como fica a preparação do aluno para a redação, já que a UEL, a UFPR têm adotado esse modelo de textos curtos, enquanto na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e nos vestibulares de outros estados ainda é proposta a dissertação?
Eu acredito que isso vem provar que nós não estamos no melhor caminho com o modelo da UEL. A própria PUC (Pontifícia Universidade Católica) em Londrina aplica o texto temático, uma proposta temática. Bem feita ou não, não vem ao caso, mas que se ofereça ao aluno a oportunidade de mostrar que ele aprendeu a pensar, e que a universidade, enquanto instituição, esteja exatamente provando essa função da universidade na vida do grupo social. Os nossos jovens estão pensando ou não? Ou nós mesmos da universidade estamos oferecendo a chance de que escrevam só para dizer que há textos e para que sejam avaliados numa gramática superficial, e não na capacidade de escrever? Quando o aluno depois encara uma proposta mais séria, e séria não precisa ser com aspas, porque é uma proposta mais séria em termos de produção de linguagem, que é um tema do Enem, ou um grande tema da Fuvest, da Unicamp, as grandes universidades, Federal do Rio Grande do Sul, os grandes concursos ainda exigem um belo tema, propõe um belo tema para que o aluno faça a discussão disso... Agora, o grande problema está nas universidades. No Enem, (pela) quantidade de alunos envolvidos, claro (que há problemas), mas na UEL, (há necessidade de) uma banca que seja treinada para anualmente trabalhar com grandes temas. Que se crie uma tradição de uma banca treinada, e não aquela de facilitar correção unicamente pelo critério puramente gramatical. É para você avaliar produção de texto e capacidade de pensar, e não um mero exercíciozinho para que alguém possa avaliar se um aluno foi alfabetizado ou não, se ele escreve através com "z", ou "menas" oportunidades.
Na era da internet, nunca se produziu tanto conteúdo quanto hoje, e de uma forma ou de outra, nunca as pessoas se comunicaram tanto por texto. Como relacionar isso com a redação dos vestibulares?
A maneira como a UEL, alguns vestibulares, Maringá, Cascavel, a própria UFPR, a maneira como estão propondo os textos vai exatamente na contramão, porque nunca as pessoas tiveram tanta oportunidade e tanta disponibilidade para o texto. Estão tendo tanta oportunidade de produzir e escrever, e exatamente num momento como esse os vestibulares vão enxugando, reduzindo de uma forma em que aparentemente as universidades estariam mais interessadas em preparar produtores de microtextos do que de texto acadêmico, o texto de alguém que vai para uma universidade e que vai se deparar com grandes leituras. Então, quando os mecanismos novos, gadgets, tecnologias modernas abrem tantas perspectivas, e tanta gente se vê entusiasmada ou interessada em escrever, nossas universidades vêm na contramão, pedindo um microtexto, ou uma amostragem de escrita, vamos falar assim. Não pedem redação, pedem amostragem de escrita, para que alguém possa avaliar gramática, quando a gente, enquanto universidade, tem que pensar em uma universidade que prepare as pessoas para pensar. Até para que elas depois tenham o que produzir, porque tem tanta coisa para poder produzir. Há tantos canais, mas a universidade produz gente despreparada para servir esses canais, esses meios. Então é um convite à superficialidade, à boçalidade. Esse é o grande problema, vai na contramão.


