EDUCAÇÃO - O reconhecimento pelo mérito
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de outubro de 2009
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
A rede pública de ensino conta hoje com 1,9 milhão de professores. Censo de 2007 do Ministério da Educação (MEC) mostra que 13% desses profissionais não têm formação adequada. E um dos maiores desafios do País atualmente é reverter esse quadro e melhorar a qualidade da educação.
Um dos sistemas mais debatidos é a meritocracia. É uma forma de avaliar, qualificar e promover o educador de acordo com os resultados obtidos, com o objetivo de tornar a carreira do magistério mais atraente.
Para o reitor do Centro Universitário Filadélfia (UniFil), Eleazar Ferreira, a meritocracia pode trazer avanços para a educação. ''Salários engessados são um desestímulo'', diz. Nesta entrevista, ele também dispara contra o posicionamento contrário dos sindicatos e o piso salarial.
A meritocracia traz avanços para a educação brasileira?
Sim. Hoje já há uma meritocracia nas universidades, mas ela é planificada. Uma carreira baseada em meritocracia faz a diferença e pode ajudar. Imagine se todos os atacantes da seleção brasilerira ganhassem o mesmo salário? É uma forma de motivar. Quem é melhor ganha mais.
O sistema pode atrair jovens para a carreira do magistério?
O que vai trazer jovens é um salário diferenciado. Se eles vislumbram essa possibilidade são atraídos. Os professores de cursinho têm isso. Eles ganham mais devido à capacidade teatral, intelectual, didática, pedagógica, além da pontualidade. Salários engessados são um desestímulo.
Por que há resistência dos sindicatos da categoria?
O sindicato tem o viés de defender a classe. Creio que essas entidades não estão renovadas. Mas já há sindicatos simpáticos à ideia. As entidades sofrem pressão da categoria porque os menos habilidosos querem ter o mesmo salário do que os outros sem esforço.
É possível cobrar mérito dos professores que não recebem um piso salarial justo?
Poucos professores hoje ganham o piso da categoria. Nem empregada doméstica está mais ganhando o piso, que é uma referência e uma bandeira sindical. O maior piso de toda a nação é o salário mínimo. O sindicato pega esse salário e acrescenta um percentual para dizer que negociou acima do mínimo. Quem está há muitos anos no mercado não está atrás do piso, que já ficou para trás faz muito tempo.
Como um professor que tem dupla ou até tripla jornada vai se preparar para as avaliações?
Isso é um problema. O professor precisa entender o foco. Mas existe profissional, em especial na rede pública, que tem um salário razoável para 40 horas e só trabalha 15 ou 20. O restante do tempo ele cuida da vida particular. É preciso ter uma vida regrada. Isso que vai fazer a pessoa crescer na carreira e na remuneração.
Não existe o risco da avaliação não ser subjetiva e de o gestor perseguir um desafeto?
A subjetividade é inerente. As avaliações têm critérios subjetivos, mas metodologia objetiva. A sensação de injustiça e perseguição é sentida por todos no momento de uma demissão, por exemplo.
Muitos professores chegam as salas de aula bastante despreparados. Por que isso acontece?
O sistema tem problemas de base. Tudo começa na educação infantil. Os professores não são preparados nas séries iniciais e terminam a carreira despreparados. Há várias deformidades na estrutura. A escola passou a ter uma influência política muito grande. Nas universidades e colégios não deveria haver política partidária.
Os planos de carreira são importantes para tornar o magistério mais atraente?
Acho que são importantes, mas não fundamentais. Eles ajudam, dão uma visibilidade de progressão, no entanto, mais importante do que isso é o salário.


