EDUCAÇÃO - Família de aluno também precisa de tratamento
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terça-feira, 18 de maio de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Para encontrar alunos indisciplinados ou com dificuldades de aprendizagem nas salas de aula não é preciso procurar muito. A situação é relativamente comum nas instituições de ensino hoje em dia. Muitas vezes os problemas fogem do controle do professor e é necessário encaminhar os estudantes para tratamentos com profissionais especializados. Não basta, porém, cuidar somente da criança ou do adolescente. É preciso envolver a família para obter resultados satisfatórios. Afinal, de que adianta orientar apenas o aluno se ele convive em um núcleo familiar desestruturado?
''Por trás de uma criança que xinga, que agride professores e os colegas, existe uma família em sofrimento. Por isso, precisamos verificar o que pode estar ocorrendo em casa que está afetando o ambiente escolar, as relações do aluno e a sua aprendizagem'', adverte a assistente social Jiuzete Vasconcellos de Araújo.
Por isso, ela defende que a terapia familiar é o método mais indicado para resolver conflitos que envolvem os estudantes, independentemente de classe social. Mas lamenta que o acesso aos tratamentos seja tão limitado. ''Para se ter uma ideia, poucos são os postos de saúde que contam com uma assistente social, uma psicóloga e um psiquiatra. Um terapeuta familiar é mais complicado ainda'', aponta Jiuzete. ''É uma pena porque é muito mais barato prevenir do que tratar'', completa.
Todo aluno indisciplinado ou que tem dificuldade de aprendizagem deve receber tratamento psicológico? Ou o acompanhamento pedagógico pode ser suficiente?
Depende da dificuldade que o aluno apresenta. Se no contato que tenho com ele e com a família observo que existem conflitos familiares que estão interferindo no contexto escolar do aluno, sem dúvida alguma ele deve receber atendimento por um profissional da área de terapia familiar.
O encaminhamento para um psicopedagogo deve ser feito quando observamos que sua dificuldade está na aprendizagem, mas nada impede que esse aluno tenha acompanhamento por um profissional da área de psicopedagogia e também com o terapeuta familiar. Ele pode ter um problema de aprendizagem e também estar vivenciando situações de conflitos familiares que requerem intervenção terapêutica.
Como a terapia pode auxiliar os estudantes que têm problemas?
No problema da indisciplina, trabalhamos com o contexto. Ou seja, o que pode estar ocorrendo com essa família que está tendo ressonância no ambiente escolar, nas relações do aluno, na aprendizagem. Tiramos o foco do aluno, ampliamos para o contexto da família.
Existe uma visão equivocada de que o terapeuta vai dar a solução que a família precisa para resolver o seu problema. Na verdade, a solução está nas mãos da própria família. O papel do terapeuta é o de facilitador. Como terapeuta de família da linha sistêmica, não consigo ver resultados positivos de uma abordagem que envolve um aluno com problemas de comportamento sem trabalhar o seu contexto familiar.
Este tipo de acompanhamento, que envolve a família, é disponibilizado pela rede pública de saúde?
Não. Infelizmente o acesso ao terapeuta de família é limitado, pois tem que ser particular. Para se ter uma ideia, poucos são os postos de saúde que contam com assistente social, psicólogo e psiquiatra. Com a formação em terapia familiar, é mais complicado ainda. Não existem políticas públicas preventivas, o enfoque é mais no curativo, o que é uma pena porque é muito mais barato prevenir do que tratar.
Tive a oportunidade de desenvolver um trabalho em Presidente Prudente (interior de São Paulo) em uma escola de periferia. Pude observar que por trás de uma criança que chuta, que xinga, que agride professores e colegas, que fala palavrões, existe uma família em sofrimento, com dificuldade de acesso a serviços públicos.
A imposição de limites mais rígidos não é uma forma mais simples de lidar com problemas de indisciplina nas escolas?
A coisa é um pouco mais complicada. Os pais transferiram a tarefa de educar para a escola. E escola não educa e sim dá informação. Educar é tarefa dos pais ou do responsável e significa estabelecer limites, o que não é fácil. Para estabelecer limites, eu tenho que enfrentar o desagrado e a frustração da criança e os pais muitas vezes querem se sentir aprovados, querem ser vistos como amigos. Mas o indivíduo que não passou por um processo de frustração não teve uma trajetória normal. Ele acaba achando que só tem direitos e não se conecta com os deveres.
Solução está nas mãos da família, terapeuta é o facilitador
Educar é tarefa dos pais e significa estabelecer limites, o que não é fácil


