Mudanças são processos lentos e sofridos
Processo reabilitatório não é similar ao educativo




O trabalho da pedagoga e psicóloga Rozita Edler é amplamente conhecido no meio dos educadores. Ela é doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora na área de Educação Brasileira, com enfoque para a Educação Inclusiva. Atualmente é consultora em Ensino Inclusivo na Secretaria de Educação do Paraná.

Nesta entrevista, a especialista aborda a inclusão no ensino regular e nas escolas especiais e trata dos medos e anseios de pais de pessoas com deficiência e profissionais da educação. E alfineta: ''A escola não existe para que a família possa trabalhar e a criança tenha onde ficar. Nem para que a criança se socialize. Nem para que a criança se alimente. Isso tudo é decorrência. Escola existe para que a criança aprenda e para participar.''

Como começou sua história com a educação especial?
Quando me formei no magistério, em 1956, me apresentei a uma diretora de colégio. Ela me entrevistou e me viu muito entusiasmada. Então, me deu uma turma de alunos especiais. Foi aí que me dei conta que tinha uma vontade enorme de ensinar, mas não sabia como esses alunos aprendiam. Vi que estava desqualificada para o trabalho com a diferença. Eram 38 alunos. Alguns tinham retardo leve. Outros comprometimentos motores e dislexia. Outros ainda possuíam transtornos de conduta, eram inquietos, com atitudes desafiadoras. Diante desse desafio enorme, vi que tinha um desejo ainda maior de remover as barreiras para ensinar.

Como a educação pode ser inclusiva?
No momento em que reconhecer as diferenças e todo o processo educativo estiver centrado no ensino e aprendizagem. A escola não existe para que a família possa trabalhar e a criança tenha onde ficar. Nem para que a criança se socialize ou se alimente. Isso tudo é decorrência. Escola existe para que a criança aprenda e para participar.

Os professores em geral temem educar alunos especiais. Por quê?
Essa mudança de consciência talvez não ocorra com os educadores que hoje estão aí. Alguns de nós temos tanta cristalização nas crenças, nos valores e nas práticas que as mudanças são também processos lentos e sofridos para nós. Quando falamos em mudança no processo, pensamos que as pessoas vão mudar. Mas nem sempre a mudança vai acontecer com aquela pessoa e aquele grupo. Lembremos que a cada ano pessoas entram e saem do contexto educacional. Essas pessoas novas que estão discutindo assuntos que não foram discutidos antes serão capazes de avanços nunca pensados. Nós estamos vivendo mudanças vertiginosas. E a escola precisa absorver essas mudanças. Se não for possível com os educadores que hoje estão, sangue novo está entrando. E nós queremos que eles recebam a bagagem que nós acumulamos e que possam repensar essa bagagem.

Qual a maior dificuldade para a educação inclusiva sair do papel?
É a atitudinal. O diferente nos assusta. Não pelo belo ou pelo feio que ele é. Mas sim pelo medo de não sabermos lidar com ele. É um medo-projeção, medo que temos de não saber lidar com as nossas próprias partes feias. É essa a contribuição da psicanálise. Precisamos pensar como acolhemos e como aceitamos o outro. Porque uma pessoa pode estar presente e não estar afiliada, ser como um estrangeiro no próprio grupo. Isso é um processo lento e sofrido.

Como trabalhar a formação dos professores, que se dizem, muitas vezes, despreparados para essa tarefa?
O ideal é que as escolas tenham toda semana um horário remunerado para discutir teoria, que se apropriassem das novas ideias que vêm surgindo. Na nova proposta do curso de pedagogia o tema já é parte da grade. Inclusão é a melhoria da escola que nós temos para todos. Porque a nossa escola, e a de muitos países, é elitista e excludente. Inclusão é você melhorar a resposta educativa que a escola oferece para todos. E nesse ''todos'' estão as pessoas com situação de deficiência.

A educação inclusiva no sistema regular é para todos os alunos com deficiência?
Não. Não deve ser para todos. Se a educação é responsável eu não vou entender que essa inclusão feche as classes das escolas especiais, como se em um passe de mágica, porque eu fechei aqui e abri ali, a inclusão está realizada. A proposta do governo passa por aí, limitar o apoio e o suporte financeiro de tal modo que elas não consigam se sustentar. Porque as pessoas que procuram essas escolas especiais são pessoas oriundas das camadas populares. A maioria não conseguiria arcar com o ônus, que é caro, de um atendimento educacional especializado, que é um atendimento integral, não pode acontecer duas ou três vezes por semana.

Alguns professores dizem que a inclusão tem sido imposta. Isso não é um problema?
Inclusão não é um problema. É um desafio. Nada que funcione de cima para baixo tem um bom futuro. Porque se as pessoas que farão inclusão não participarem do processo e não forem co-autoras, elas serão mandadas.

Os pais temem a falta do atendimento especializado nas escolas regulares. Como será feito isso?
As famílias têm medo que seus filhos percam o espaço protegido que as escolas especiais têm oferecido. Mas fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, por exemplo, não são processos educativos. São processos reabilitatórios. Escola não é clínica. São equívocos que as escolas especiais cometeram e acabaram sofrendo na pele isso. O processo reabilitatório não é similar ao processo educativo. Eles são complementares. É verdade que sem a fisioterapia ou sem a fonoaudiologia muitas crianças terão dificuldades no processo pedagógico, mas por muito tempo as salas de aulas eram, nesses casos, salas de espera. Quem financia reabilitação não é o MEC, mas o Ministério da Saúde.

Como trabalhar o medo que os pais têm que seus filhos com dificiência sofram preconceito no ensino regular?
A ideia de que na escola comum as crianças estão mais vulneráveis pode ser uma verdade ou uma mentira. Se a escola especial não é o mundo no qual estamos, se elas não são abertas, se não receber visitas, se não sair com os alunos, elas podem criar outro universo, isso não é inclusão, é reclusão. Veja que o perigo está em ambos os lados.

Quanto tempo será necessário para a inclusão ser uma realidade?
Eu diria que nunca será. É um processo. Continuarão a surgir novos desafios. Pessoas são únicas. Só escola especial sem inclusão no ensino regular é exclusão. Sem escola especial, só inclusão no ensino regular, também é exclusão. Não podemos aceitar esse radicalismo. A inclusão é possível, se entendida como a melhoria da resposta pedagógica que nós oferecemos para todos.

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