O especialista em educação Mozart Neves Ramos é engenheiro químico de formação, dá aula sobre o assunto há 35 anos, mas educação é sua paixão. Ele já foi reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), secretário de Educação daquele estado e hoje é membro do Conselho Nacional de Educação e conselheiro do ''Todos pela Educação'', movimento que tem uma missão nada simples: garantir que até 2012 o direito à educação básica de qualidade seja realidade para todas as crianças e jovens do Brasil.
Nesta entrevista, Mozart Ramos, que esteve recentemente em Curitiba a convite da Aymara Educação, apontou algumas iniciativas que poderm ajudar o País a atingir esse objetivo. Um das principais é a valorização da carreira docente, uma vez que a maioria dos jovens hoje em dia não quer ser professor.
Outra mudança recomendada pelo educador é a aprovação automática usada de forma correta, com reforço para que os estudantes com dificuldades de aprendizagem possam recuperar o tempo e evitar que seja necessário repetir de ano, principalmente quando o aluno ainda é uma criança.
Qual o diagnóstico que o senhor faz da educação no Brasil de hoje?
O Brasil avançou muito, não na velocidade desejável, mas avançou. O País tem hoje um sistema de avaliação das escolas, que é a Prova Brasil, e que permite que a gente saiba como está a aprendizagem dos alunos em cada escola. Tem um sistema de financiamento da educação básica, feito em colaboração entre Estados, união e municípios, que vai desde a creche ao ensino médio, através do Fundeb. E tem metas estipuladas para chegar a essa educação de qualidade até 2022, através do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica).
O que falta para chegar a esta educação de qualidade?
O mais importante é a questão da valorização da carreira do professor, de modo a tornar a carreira objeto de desejo da juventude, porque o jovem não quer ser professor. Para isso, são necessárias quatro mudanças na atual conjuntura: ter um salário atraente - já que hoje o professor ganha 40% menos do que outros profissionais de mesma escolaridade -, ter um plano de carreira que motive a permanência na carreira e que seja baseado no estímulo à formação e não no tempo de serviço, melhorar a formação do professor e disponibilizar em todas as escolas os insumos necessários para que esse professor valorizado possa cumprir bem o seu papel.
Para isso, é necessário mais recursos..
O Brasil ainda investe pouco na educação básica: os R$ 2.948 por aluno/ano são menos do que países vizinhos como México, Chile e Argentina. Concomitantemente é preciso melhorar a qualidade da gestão desses recursos, que muitas vezes nem chegam à escola, ficam no meio do caminho por causa das estruturas pesadas das secretarias. É preciso também profissionalizar os gestores das escolas, acabar com essa história de indicação política de diretores. Outra medida importante é a responsabilização de resultados, ou seja, se uma criança não foi alfabetizada no tempo certo, de quem é a responsabilidade?
Falando sobre aprendizado, o senhor é contra a reprovação de alunos, não é?
Sou contra nas primeiras séries do ensino fundamental. Eu acho um absurdo uma criança de 6 anos ser reprovada no 1º ano, isso é um desestímulo. Acho que deveria ter um ciclo de alfabetização dos 6 aos 8 anos de idade, em que a criança seria acompanhada de perto, para identificar suas dificuldades, usar o contraturno para ajudá-la, ver até se existe um problema piscológico que esteja prejudicando seu aprendizado. Passada essa fase, aí sim o aluno teria que ralar, como se diz por aí.
O senhor concorda com o sistema de ciclos, em que não há reprovação?
Sou contra. Da forma como está sendo feita ao longo da educação básica, a aprovação automática acontece pela metade, ou seja, aprova-se o aluno sem ele saber o mínimo que deveria. Nos países onde o índice de reprovação é praticamente zero, eles não aprovam de qualquer maneira. O aluno tem a sua responsabilidade, mas a escola tem que prover condições, identificando problemas de aprendizagem e ajudando esse aluno, seja em contraturno, em atividades em casa, chamando os pais para acompanhar, tentando identificar se há outras questões externas à aprendizagem.
Uma das metas do Plano Nacional da Educação (PNE), que tramita no Congresso, é implementar a educação integral até 2015. O senhor acha que esse é o caminho?
Naturalmente que uma hora a mais que seja vai fazer uma diferença enorme na aprendizagem do aluno. O grande empecilho não é dinheiro, não é espaço físico, mas a falta de professor. Hoje, com aulas de quatro horas, já existe um deficit enorme, porque o jovem não quer ser professor. Esse é o desafio. De qualquer modo, para ter uma escola integral é importante ter um projeto pedagógico articulado, que não seja um somatório de coisas que não se conversam entre si.
Não é uma questão de vontade política valorizar a educação?
Quando eu deixei a Secretaria de Educação de Pernambuco, em 2003, tínhamos implementado 33 escolas de ensino médio em tempo integral. Mas não era só o tempo integral, elas tinham um modelo pedagógico diferente, era a escola em que eu colocaria meus filhos. De manhã tinha aulas regulares, à tarde, laboratórios, com os professores trabalhando nos dois períodos, porque você só faz a interdisciplinaridade se os professores tiverem tempo de se articular em relação aos conteúdos. O jovem quer uma escola que caiba na vida, ele quer aprender coisas que sirvam para a vida dele ou ele abandona a escola. Esse é o problema do ensino médio hoje, os alunos não se sentem motivados para continuar.
E em que tipo de escola o senhor matricularia seus filhos?
Primeiramente, uma escola que realmente tivesse a responsabilidade de formar um cidadão, onde além de aprender o conteúdo, ele recebesse também uma formação ética, moral, onde haja respeito mútuo professor/aluno, que o professor respeite horários, prepare as aulas, diga aos alunos o que vai ensinar. Uma escola que valorize a criatividade, que valorize e motive os professores e que tenha um diretor capaz de mobilizar as famílias para participar, para fortalecer os conselhos escolares, para que a escola funcione de maneira integrada com a comunidade. É importante que a escola tenha essa preocupação com o entorno, ou vamos acabar formando bons engenheiros, por exemplo, que não pensam nas consequências do desmatamento.
Esse é o seu modelo para a escola pública?
Sempre digo que escola pública não pode ser escola para os pobres, tem que ser para todos os brasileiros. No dia que pensarmos dessa maneira, a gente não oferecerá mais qualquer escola. Até os professores de escola pública botam seus filhos nas particulares! São 32% deles! É preciso entender que os menos favorecidos são os que mais precisam da educação.
Como o senhor vê a situação crescente de violência nas escolas, com os casos de bullying, de agressão de professores por alunos?
A escola não é um disco voador que pousou no meio da comunidade, ela é um reflexo da sociedade. E a sociedade está vivendo um momento de crise no sentido de transição. Estamos tendo choques mais rápidos de gerações. Antes as mudanças eram muito mais lentas, hoje são imensuráveis, gerando uma dificuldade de se acompanhar tudo isso, de se criar um ambiente de maior harmonia e fraternidade. Ao mesmo tempo há uma pressão muito grande em cima da juventude, o que automaticamente rebate na falta de tempo para as famílias, para criar valores com seus filhos. Quer dizer, há uma perda de valores na célula familiar, o que repercute na questão da violência, na pressão que o jovem sente, na inflação decorrente da droga e do tráfico dentro da juventude e na pouca capacidade de controle do Estado. Tudo isso rebate na educação.
Essa situação exige um resgate da família, da sociedade e a escola também tem seu papel. Tem um provérbio africano que diz que para educar uma criança é preciso toda uma aldeia, ou seja, para educar é preciso recuperar o papel dessa aldeia na educação, e aí entra a escola, a família, a sociedade.

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