EDUCAÇÃO - 'Escola participativa não é permissiva'
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Marian Trigueiros<BR>Reportagem Local 
As mudanças sociais nas últimas décadas influenciaram diretamente no envolvimento dos pais na educação dos filhos. Em função de uma jornada longa de trabalho, as crianças passam boa parte do dia nas escolas. E, com isso, as famílias acabaram transferindo a responsabilidade da educação para as instituições de ensino.
De acordo com a psicóloga clínica e escolar, Kellen Escaraboto Fernandes, os pais estão se eximindo da transmissão de valores, limites, normas e regras. Assunto, inclusive, abordado pela psicóloga no 13º Encontro Pedagógico Nacional do Sistema Maxi, na última semana.
Por que as escolas devem se atentar para as regras, permissões e proibições?
O que tem acontecido é uma inversão de papéis: a escola vem assumindo totalmente o papel de educar, quando esse papel é dos pais, que estão se eximindo da responsabilidade. Nesse cenário, muitas escolas, principalmente diante dos adolescentes, impõem regras. Eles, por sua vez, querem transpor e enfrentar essa imposição. Por isso, a necessidade de ver a escola como um meio facilitador, e não só impositora de regras. Claro que cada escola tem o seu projeto político pedagógico e isso precisa ser respeitado. Mas existe hoje, uma necessidade de que as instituições construam seus regimentos em parceria com os pais e alunos para promover um comprometimento.
Qual a maneira de construir uma parceria?
As escolas têm que criar espaços de participação, de convivência e de discussão. Não é apenas promover uma palestra uma vez por ano. São espaços onde pais e alunos poderão se reunir com frequência para debater dificuldades, ouvir profissionais da área da educação, até mesmo o professor. Essas experiências dão certo, porque acaba realizando uma aproximação, um estreitamento da relação. Os pais passam a ser mais participativos e não vão mais à escola somente para buscar o boletim do aluno. Esses espaços são oportunidades também para os alunos discutirem, trazerem ideias e soluções criativas aos problemas.
E como tornar isso atrativo? Levar um adolescente para uma reunião não parece ser tarefa fácil.
Não vamos conseguir abraçar a todos, mas a escola precisa entender que ela deve começar. O aluno precisa se sentir importante, perceber que o que está fazendo vai gerar uma consequência positiva. A partir do momento que se sente responsável por essa proposta, ele vai se transformando em um disseminador da ideia. Isso fortalece a autoestima, autoconfiança, e faz que ele não só permaneça no projeto, mas também traga outros adolescentes.
E de que forma os alunos podem construir essas regras?
Participei de uma experiência numa escola em que os meninos queriam ir de boné, e era proibido. Resolvemos fazer uma assembleia. Nesta oportunidade, eles colocaram os motivos pelos quais gostavam de usar o acessório e porque era importante para eles. Colocamos nossa posição dizendo qual a razão do boné não ser aceito dentro da sala de aula, como atrapalhar a concentração e da dificuldade dos professores olharem nos olhos do aluno. Conversando e lavantando os pontos positivos e negativos, chegamos num ponto de equilíbrio e os próprios alunos chegaram a uma conclusão: que não usariam o boné dentro da sala, mas poderiam usar no recreio e no pátio da escola. Nós acatamos, e a proposta foi boa para ambos os lados. E o mais importante é que todos respeitaram a decisão. A escola não impôs nada, tudo foi construído em conjunto.
Quando os educadores voltaram os olhos para esse modelo participativo?
Isso não nasceu no Brasil, tanto que existe uma escola modelo, em Portugal, que desenvolve um trabalho há mais de 40 anos. No Brasil é muito recente; existe há dez, 20 anos. Mas agora que as escolas estão começando. Outras, entretanto, nem sabem que existem. Na maioria das escolas, ainda é o professor quem dá a última palavra. Porém, os educadores estão percebendo que da forma como está sendo conduzido não é mais adequada. Isso porque, o aluno de hoje, não é o aluno que nós fomos. O aluno de hoje questiona, briga e enfrenta.
Qual o primeiro passo. Como implantar essa mudança?
O primeiro passo é não culpar o Governo, não culpar a sociedade ou as famílias e se responsabilizar por esse processo. É muito fácil eu justificar o meu não fazer, porque eu ganho pouco ou porque estou desmotivado. Existe uma escolha profissional, e independente do que eu ganho, eu tenho que me comprometer com o aluno. Não estou dizendo que salário não motiva, mas o professor tem que validar esse status de ser educador. Não é assumir a função da família, mas entender que o papel dele não é simplesmente transmitir conhecimento.
E os resultados? O que mudou efetivamente nas escolas que já iniciaram esse tipo de trabalho?
Mudaram as relações. O professor não assume uma posição de amigo, mas assume uma posição de alguém próximo, que o aluno pode contar, conversar, expor as ideias. Quando temos uma relação mais próxima, facilitada, também melhora a condição de respeito. É muito mais fácil eu respeitar alguém que eu gosto, que admiro e até mesmo não confrontar. Percebemos que os professores mais próximos dos alunos são aqueles que conseguem os melhores resultados. O aluno faz as atividades, a tarefa, enfim, participa. Aí existe uma relação entre professor e aluno, diferente de uma imposição professor e aluno. E a consequência é aproximar também a família da escola e do aluno. Isso favorece vínculos sociais saudáveis.
As escolas que insistirem no modelo tradicional estão fadadas ao fracasso?
Não sei podemos dizer isso, seria muito afirmar. Mas eu me pergunto: onde é que vai chegar esse processo se não for modificado? Não sei se fracasso seria a resposta, mas com certeza uma dificuldade, desgaste e sofrimento. E aqui eu destaco: abrir espaço à participação não é a escola entrar numa condição de permissividade. Ela tem que ter normas e regras, instituir procedimentos. Só que tudo isso precisa ser construído junto dessas famílias que participam da escola.


