Com mais um ano letivo em andamento, começa agora a dura missão para muitos pais, fazer com que os filhos estudem em casa. O neuropedagogo Pierluigi Piazzi, um dos autores do Sistema Anglo de Ensino, esteve em Londrina e em entrevista à FOLHA fala sobre essa rotina.

Uma das preocupações, segundo ele, é o hábito dos alunos brasileiros de estudarem apenas na véspera da prova, com o objetivo de tirar nota e ''passar de ano'', quando o correto seria o estudo solitário após as aulas e antes de dormir, fundamental para a fixação das informações. Piazzi destaca ainda a importância do papel da família no desenvolvimento da inteligência da criança.

O senhor diz que inteligência se aprende. Não existe a possibilidade de uma pessoa nascer provida de mais inteligência?
A inteligência não está no genoma; não é genética. Existe a figura do superdotado, mas é muito mais raro do que se imagina. Uma vez, uma mãe chegou até mim e disse: ''Meu filho é superdotado e por isso gosta de ler.'' Eu respondi. ''Minha senhora, inverta o raciocínio. Ele gosta muito de ler, por isso ele se tornou um superdotado.'' Na realidade, a inteligência é fruto da história e dos estímulos que o sujeito recebeu.

Mas todos têm a capacidade de se tornar inteligentes?
Todo mundo em qualquer idade. Na verdade, eu divido o ser humano em duas idades: até os dez anos de idade - muito intensamente nos primeiros dois, três anos de idade - ele monta a ''fiação'' do cérebro. A partir dos dez anos, com a fiação pronta, ele começa a reconfigurá-la de maneira a absorver novos talentos, raciocínios, inteligência etc. São duas etapas distintas.

Qual seria o conselho àqueles que desejam se tornar inteligentes, mas estão fora do ensino formal?
Muita leitura. Muita leitura equivale a muito mais que fazer qualquer curso; é uma necessidade estimular o cérebro. No entanto, o que produz o acréscimo de inteligência não é a qualidade do que se lê, mas a quantidade do que se lê. É óbvio que a pessoa não deve ler muita porcaria constantemente. Mas o trabalho de decodificação da palavra escrita - no computador não funciona, tem que imprimir - é a ''ginástica mental'' necessária para o cérebro evoluir. Sempre digo: Se você vai ler um ''Dom Casmurro'' e vinte ''Sabrina'', leia vinte ''Sabrina''.

O senhor fala muito sobre a questão de aula dada, aula estudada no mesmo dia. Como funciona essa técnica?
Eu divido o ciclo da aprendizagem, que é o ciclo diário de 24 horas, em três etapas: aula, o estudo solitário e o sono. Durante a aula o aluno entende, no estudo solitário ele aprende, e no sono ele fixa para a eternidade. O que acontece, até por uma distorção cultural, é que as faculdades de pedagogia se preocupam apenas com a primeira parte, somente com a aula. E não percebem que a parte mais importante do processo é quando o aluno está fora da sala de aula, quando está sozinho. Nós temos uma pedagogia inútil, que precisa de uma reformulação drástica. O Brasil tem milhões de alunos e pouquíssimos estudantes.

Então o argumento usado pelas Secretarias de Educação sobre a formação continuada do professor é bobagem?
Não é o professor quem tem que melhorar. Eles se concentram em cima da metade menos importante do processo. E a metade mais importante que é o estudo solitário do aluno, eles esquecem. Assim, nos deparamos com os absurdos como alunos terem aula e não receberem tarefa do dia. Uma aula sem a tarefa do dia é jogada no lixo, pois não vai ser fixada; é uma aula inútil. O resultado disso, é que os alunos estão estudando somente na véspera da prova, que é o jeito mais estúpido e burro de se estudar. Ele até tira nota, mas esquece tudo depois. Eles precisam e devem estudar um pouco todos os dias.

Também há a necessidade de se mudar a metodologia, diante de uma evasão escolar em que não se consegue sequer reter o aluno durante a aula?
As aulas precisam ser melhoradas? Sim. Mas esse não é o ponto significativo. Na medida em que o sujeito tem as horas de estudo, ele começa a perceber que seu rendimento aumenta e assim, começa a se tornar um aluno mais participativo, mais consciente de suas possibilidades. Como consequência, sua autoestima aumenta, e portanto a possibilidade de evasão escolar diminui.

Ainda há salvação para o ensino?
Claro que existe salvação. O primeiro passo é criar possibilidade de que o aluno tenha um momento de estudo solitário na própria escola porque, principalmente na escola pública, existe aluno que em casa não tem nem mesa, quanto mais sossego para poder estudar. A escola tem que fornecer isso. Eu vou dar um exemplo: se uma escola dá cinco aulas por dia e depois não pode reter mais o aluno é melhor que essa escola dê três aulas e duas de estudo, porque essas cinco horas serão jogadas no lixo.
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O senhor fala muito sobre o malefício da televisão e do computador, por quê?
A televisão toma um tempo que poderia ser utilizado de uma forma mais útil. A televisão aberta vive na base do Ibope, e o alto Ibope é aquele que procura a linha de menor resistência. Por isso, o baixo nível intelectual dos programas de TV. No caso do computador, não é tirar a criança do computador, mas tirar o computador dela. O computador deve ficar na sala, para o pai ver a hora que é ligado e desligado e ainda que o conteúdo acessado seja público.

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