Editorial/Otimismo empresarial
Os bons resultados obtidos no combate à inflação representam, sem dúvida, um fator de enorme importância no quadro da recuperação econômica brasileira. Isto, porém, é apenas parte de um processo que só poderá atingir sua plenitude se houver contrapartidas na área oficial. Se os governos federal, estaduais e municipais fizerem sua parte, enxugando o mal afamado custo Brasil, o nível de confiança da população e do setor privado subirá a alturas somente atingidas em nosso país nos tempos do governo Juscelino Kubitschek - e durante o efêmero milagre de 1970/73. Esta confiança se refletirá numa variável fundamental para a prosperidade econômica, chamada investimentos. Sem eles, não acontece nada. Empregos, salários, distribuição da renda, reordenação das migrações internas, desenvolvimento social etc., nada disto acontece sem investimentos consistentes e crescentes por parte do setor privado - nacional e internacional.
A boa notícia é que, em pesquisa realizada pela firma de consultoria Arthur Andersen, as maiores empresas do País se mostram otimistas com o próximo ano e dispostas a aumentar 23% o volume de investimentos em relação a este ano. O levantamento foi feito junto a 132 companhias, entre as 500 maiores do País.
Para os empresários consultados, a inflação deixou de ser a grande preocupação que foi no passado, passando para o último lugar entre os problemas que o empresariado deve enfrentar. Para o ano que vai começar, o maior problema, na opinião da maioria dos homens de empresa consultados, é a carga tributária, seguida pela taxa de juros. Até por isso, a maioria dos investimentos projetados para 97 será feita com recursos próprios. Não deixa de ser importante observar que estas duas maiores preocupações dependem, basicamente, da mesma fonte - o governo federal.
Não se pode esquecer que, efetivamente, o governo realizou este ano um trabalho não desprezível para reduzir a carga tributária, especialmente do setor exportador a fim de estimular as vendas externas num horizonte de oito a dez meses. Igualmente, os juros têm se reduzido, embora estejam ainda em níveis elevados. É preciso fazer mais nas duas frentes: a reforma tributária não é um simples quebra-galhos e os juros locais cobram em um mês o que os juros internacionais levam quase um ano para arrecadar. Num como noutro caso, são tímidas as realizações oficiais.
Pode-se avaliar por esses dois itens a falta que faz para a administração a conclusão do processo das reformas estruturais. Mas há um terceiro, que também faz muita falta. Se o governo pudesse ao menos reduzir o déficit público, o que é muito difícil sem as reformas, mas não impossível, haveria condições de alterar mais amplamente a carga tributária, ainda que sem a reforma completa. Ao mesmo tempo, poderia baixar mais a taxa de juros. O resultado é que, sem nada disso, o setor privado não deslancha, o desemprego não cai e o crescimento econômico diminui.
O que pode acontecer no ano que vem, no setor privado, já poderia ter acontecido antes. Mas ainda bem que há certo quantum de otimismo e confiança. Existe confiança apesar de não se esperar que o governo solucione os seus problemas e este é um fator da maior importância. Os empresários têm conseguido encontrar alternativas para enfrentar os desafios, o que não é pouca coisa num quadro de grande dificuldade e indefinições oficiais.
Os setores produtivos têm o direito de exigir das autoridades uma atitude mais concreta em face dos problemas estruturais e sociais que o País enfrenta. Se as perspectivas econômicas para o próximo ano parecem melhores, inclusive com a boa notícia dos investimentos privados, governo e políticos devem ser pressionados, compelidos, acossados a fazer a parte que lhes cabe. O próximo ano não terá eleições. Que o tempo seja todo aproveitado para o bem do País.





