Enquanto o Senado começa a debater a reforma da Previdência, já aprovada (muito mutilada) na Câmara, os deputados se preparam para retomar a reforma administrativa, tudo dentro do que havia sido antecipado sobre a pretendida agilização, no Legislativo, das reformas estruturais já muito retardadas. Lamentavelmente, porém, apesar do anunciado empenho em ambas as Casas no sentido de se concluir o mais rápido possível o processo, são poucas as esperanças de que as mudanças que venham a ser aprovadas tenham a profundidade necessária para garantir seu primordial objetivo: o de garantir base para que o Governo faça sua parte no processo de estabilização da economia, com o combate ao déficit orçamentário em primeiro lugar.
A emenda da Previdência já chegou ao Senado bastante diferente do que o Governo Federal pretendia, com as alterações aprovadas pela Câmara que desfiguraram bastante a proposta original. No Senado, o Executivo pretende conseguir restaurar algumas das alterações, o que, além de ser difícil, enfrenta outro obstáculo: com efeito, se o Senado modificar a proposta como foi aprovada pela Câmara Federal, a matéria volta à outra Casa para nova rodada. Isto significa, em princípio, que mais uma vez a reforma será atrasada, além de ser muito possível que as eventuais alterações feitas pelo Senado venham a ser descartadas de novo. O Executivo terá, assim, duplo trabalho, começando por convencer o Senado a aprovar coisas que a Câmara rejeitou, como o estabelecimento da idade mínima para a aposentadoria ou o fim das aposentadorias especiais e de outras regalias. Depois, será preciso mobilizar de novo todos os esforços na Câmara, para manter as reformas.
Em relação à reforma administrativa, que ainda se encontra na Câmara Federal, a situação também não é das mais fáceis, sendo possível sentir uma pressão muito grande no sentido de se manter privilégios que beneficiam parlamentares. É uma situação no mínimo curiosa, mas real, esta que permite aos deputados uma atuação eminentemente casuística. O desejável seria que, ao votar, o parlamentar levasse em conta o interesse nacional ao invés de se preocupar com sua situação particular. Esta, porém, é uma situação muito delicada. E, até agora, o Executivo não apenas vem tendo enormes dificuldades em conseguir fazer passar emendas que representem o fim de privilégios para membros do Legislativo como, também, enfrenta problemas em sua própria área, com pressões específicas de alguns participantes do poder central também lutando contra o fim de algumas vantagens.
É preciso uma dose muito elevada de espírito público, o que parece estar em falta há tempos junto aos escalões do poder no País, para que se realizem reformas sérias, acabando com privilégios, estabelecendo normas capazes de reverter um quadro quase caótico da administração pública.
A necessidade de profundas reformas estruturais no País tem sido sentida desde antes da convocação da Constituinte de 86. Infelizmente, o resultado daquele plenário, a Constituição de 88, revelou-se falho. A nova Carta, mantendo privilégios e criando outros, acabou por tornar ainda mais difícil a administração do País. Mudar isto, acabar com privilégios, criar uma situação mais propícia, abrindo assim verdadeiras condições a todo o esquema social e econômico, constitui ponto básico para levar o País a um destino melhor.

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