Com a agenda apertada, ainda mais porque foi incluída à última hora uma imperdível homenagem - o título de Doutor Honoris Causa (o nono de sua coleção), da Universidade de Bolonha -, o presidente Fernando Henrique Cardoso, em vilegiatura pela Europa, teve de cancelar sua visita à sede da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), em Roma. Pareceu seguramente mais importante ao sociólogo que preside o Brasil ser homenageado por seus pares intelectuais na antiga Bolonha do que discutir questões mais terra-a-terra, como agricultura ou alimentação.
Um dos pesquisadores da FAO já recebeu até Nobel da Paz, prêmio mais do que justo porque quem luta para alimentar os seres humanos faz mais pela paz do que muitos políticos. Isto, porém, sequer entrou em linha de raciocínio do presidente brasileiro, que perdeu oportunidade valiosa de dar à sua viagem européia um sentido maior. Claro que se pode ponderar que os contatos do presidente no Velho Mundo, a troca de idéias com governantes da Europa, os encontros com empresários e a audiência com o Papa (é certo que FHC já se declarou ateu, mas representa um país de maioria católica e de quase totalidade de gente de fé), foram de enorme valia, ainda mais diante da já percebida necessidade de o Brasil conquistar mais mercados no exterior para seus produtos.
Isto, entretanto, não torna menos importante e oportuna a eventual visita àquele que é, junto com o Unicef, que cuida dos assuntos da infância, um dos mais importantes organismos da ONU. Há até quem afirme, com bastante base, que a FAO, o Unicef, a Unesco (esta ligada à educação), são organismos que por si justificam a própria ONU, como organização política. E de fato, a contribuição que tais órgãos têm dado à humanidade é de inestimável valia. Em relação à FAO, maior ainda deveria ser o interesse brasileiro porque a entidade se volta à agricultura, que é o passaporte brasileiro para o rol das potências, e se preocupa com a alimentação, sem dúvida um dos maiores problemas enfrentados pelos seres humanos, incluindo-se aí muitos brasileiros.
É certo que o presidente Fernando Henrique Cardoso, ao trocar a visita à FAO pela ida à Universidade de Bolonha, sequer tenha pensado, conscientemente, na opção feita. Entretanto, o ato em si revela precisamente aquilo que tanto se tem repetido ao longo dos anos em relação à postura que os governantes brasileiros adotam em face da agricultura. A má vontade oficial em relação ao campo é histórica. Os agricultores brasileiros são verdadeiros heróis, lutando contra todos os fatores adversos postos pela própria natureza e tendo de enfrentar também a indisposição oficial. Houve época em que as autoridades declaravam taxativamente que agricultura era atividade de país subdesenvolvido e que para levar o Brasil ao progresso era preciso estimular a indústria. Também vivemos muito tempo sob a euforia dos papéis, do lucro sem trabalho, das aplicações que rendiam mais do que qualquer atividade produtiva. E a agricultura seguia marginalizada.
Alguma coisa já mudou, nos últimos anos. O fim da ciranda financeira, propiciado pelo Plano Real, obrigou a que se voltasse a pensar no investimento produtivo. O trabalho foi novamente valorizado. Muitas medidas de apoio à agricultura igualmente foram adotadas. Mas ainda é pouco. O Brasil pode fazer do campo o alicerce para sair da miséria e da pobreza. Seria interessante, porém, que o presidente da República desse o exemplo, dispensando mais atenção à FAO do que a um novo título honorífico.

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