Na viagem internacional que está realizando, o presidente Fernando Henrique Cardoso adota a tônica correta: apontando números relativos à abertura do mercado brasileiro, o chefe do Governo pede reciprocidade aos parceiros do mundo. Revelando que houve aumento substancial, acima de 100%, nas importações brasileiras da Europa, FHC destacou que a contrapartida não foi a mesma: as exportações brasileiras para o Velho Mundo subiram pouco menos de 10%. Aproveitando a oportunidade, o presidente brasileiro criticou o protecionismo europeu em relação aos produtos agrícolas, assinalando que com isto fica muito mais difícil ao Brasil entrar naquele mercado.
A situação é efetivamente séria e a postura brasileira precisa ser firme e direta. O Brasil reclama o espaço que merece no cenário mundial e não pode mais se submeter a regras leoninas, ao velho esquema do ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’, infelizmente ainda vigente no comércio mundial. A pauta brasileira de importações cresceu muito nos últimos anos e continua em elevação, o que é o maior atestado da boa fé e da disposição do país em se integrar ao mecanismo mundial de comércio. Entretanto, é natural que ocorra a retribuição. Se os brasileiros compram lá fora, é justo e lógico que os estrangeiros comprem aqui dentro.
Há, em realidade, uma série de fatores a considerar em todo este quadro. O comércio mundial não se faz em termos de assistencialismo. Mas os brasileiros não estão pedindo isto. O que reclamam, com razão, é uma política que seja igual. Sabe-se, perfeitamente, que toda esta questão envolve interesses e preocupações muito variadas. Alguns países europeus são pressionados por seus produtores no sentido de preservar antigas medidas protecionistas. Entender esta situação é possível. Aceitá-la, porém, é outra coisa.
O que o Brasil tem a fazer, além naturalmente de posições firmes como esta que o presidente brasileiro adota neste seu mais recente périplo internacional, é usar melhor seu próprio potencial, não apenas como grande produtor que é mas, também, como um adequado parceiro nas importações. Se a Europa insiste em manter mecanismos de proteção, prejudicando a relação comercial com o Brasil, além das atitudes naturais, com os protestos nos tribunais internacionais competentes, é possível também buscar outros mercados e outras parcerias. Hoje, com a política de abertura existente no país, é plenamente possível negociar em posição superior, sendo a reciprocidade uma exigência até lógica e natural.
O Brasil precisa se postar de modo profissional nesta nova etapa de sua história. Durante muitos anos, a posição brasileira foi de país pequeno, fornecedor de matérias-primas que dependia da boa vontade de outras nações. Hoje, há uma nova situação e os brasileiros começam a se colocar na posição correta de potência efetivamente emergente, um mercado forte e firme, que pode comprar, mas que também tem o que oferecer. Trabalhar em toda a cadeia produtiva é fundamental. É preciso produzir mais, inclusive porque com isto será possível também ter preços mais competitivos no mercado. Por outro lado, será necessária a adoção de uma posição mais corajosa para ganhar tais mercados.
Para enfrentar o desafio do desenvolvimento, o Brasil tem que ganhar novos mercados e aumentar sua participação no comércio mundial, o que vai obter não apenas com reclamações (ainda que justas), mas também com muito trabalho. É preciso conquistar com seriedade o lugar que o País merece no quadro mundial.

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