O Congresso Nacional acabou contrariando as afirmações segundo as quais, para os políticos, o ano só começa depois do Carnaval. Na convocação extraordinária que terminou a semana passada, 7 das 107 matérias que justificaram o período foram aprovadas. Em termos percentuais, é tão pouco que sobraram críticas ao Poder com levantamentos sobre os custos disto para os cofres públicos. Entretanto, a aprovação pela Câmara Federal da emenda da reeleição, em primeiro turno, compensa sem dúvida a não apreciação da maioria esmagadora dos projetos em pauta.
Sabe-se perfeitamente que a própria emenda que garante aos chefes de Executivo a possibilidade de disputar a reeleição ainda terá um caminho longo pelo Legislativo. Todavia, o grande teste foi o primeiro turno, que deixou bem definida a força do Executivo no Congresso. E certamente a emenda acabará sendo aprovada e promulgada ainda neste primeiro semestre, possivelmente sem chamar sequer o povo a opinar a respeito. Com isto, as atenções do Governo podem, enfim, se voltar para questões de importância vital, principalmente as reformas estruturais, que continuam caminhando a passo de tartaruga pelo Congresso.
Na verdade, a aprovação da emenda da reeleição deve ajudar o encaminhamento e a agilização das demais alterações constitucionais. O raciocínio é simples: o titular do Executivo pode agora candidatar-se a um novo mandato. Mas precisa, naturalmente, ganhar nas urnas o direito de permanecer no cargo. O direito de se candidatar não é garantia de vitória. Hoje, conforme todos os levantamentos de opinião, plenamente confiáveis, o presidente Fernando Henrique Cardoso tem enormes possibilidades de vencer a disputa presidencial. Entretanto, o pleito só vai acontecer dentro de um ano e meio.
O grande trunfo do presidente é precisamente o mesmo que o conduziu à expressiva vitória de há dois anos: o plano de estabilização econômica. O sucesso do programa, que teve o sr. Fernando Henrique como mentor, serviu como verdadeira alavanca para sua candidatura. Ele saiu do Governo Itamar Franco e sua candidatura subiu como rojão, culminando com a vitória no primeiro turno, sem atropelos ou temores. E o prestígio que o chefe do Executivo ainda desfruta no momento é resultado do sucesso do Plano Real. Mas para conseguir ser reeleito em outubro de 1998, ele precisa que o programa continue firme. E isto, sem dúvida, só será possível se o Governo efetivamente realizar a parte que lhe cabe na questão.
O otimismo popular em relação à situação econômica persiste, apesar de alguns golpes, como a elevada taxa de inflação de janeiro ou a persistência do déficit na balança comercial. É fora de dúvida, porém, que sem a rápida implementação das reformas estruturais para criar condições a uma efetiva redução do déficit público, o plano econômico corre riscos. O que se tem feito para conter o déficit sem as reformas é quase um paliativo. E a verdade é que sem mudanças profundas, as dificuldades aumentam.
Para um presidente que quer se reeleger, é vital que as coisas melhorem. Não se pode mais perder tempo. Se o programa começar a fazer água, o Executivo e seus aliados no Congresso ficarão em situação delicada. Quer dizer, o Governo que agora pode se colocar como opção para sua própria sucessão precisa garantir a posição. Ou completa o plano neste ano, garantindo a já consagrada estabilidade, ou se arrisca a perder as eleições.

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