É difícil encontrar adjetivos suficientes para as declarações do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, feitas a um grupo de parlamentares do Estado, em relação à pretendida vingança contra o governador do Paraná por não ter apoiado a emenda da reeleição. Um absurdo, um destempero verbal que seria inaceitável se partido por um político qualquer, mas que ganha maior intensidade porque feito por um membro do primeiro escalão do Governo Federal, pessoa, portanto, da estrita confiança do presidente da República.
O que se tem neste caso é mais uma inequívoca manifestação de prepotência, que tem sido, infelizmente, a tônica da ação daquele ministro, transformado aparentemente em rolo compressor do Governo Federal nas investidas visando obter apoio para suas atividades. Ocorre que ao investir contra o governador do Paraná, anunciando inclusive que vai ‘‘destruir aquele cara’’, o representante do Governo da União não ataca apenas o sr. Jaime Lerner, mas a todo o Estado, inclusive os representantes paranaenses (o que também atinge membros de seu próprio partido). Ademais, ao misturar as coisas, transformando o eventual não apoio a uma questão efetivamente discutível, como é a da reeleição de chefes de Executivo, em tema para retaliações contra quem quer que seja, o sr. Motta transforma o Governo Fernando Henrique Cardoso em algo pior do que balcão de armazém, em que se compra e vende coisas. Há na ameaça um ranço de atitude mafiosa.
Acredita-se que o presidente Fernando Henrique Cardoso não partilha deste sentimento expresso pelo seu ministro, nem pretende adotar qualquer tipo de represália, seja ao governador (ou ao Estado) do Paraná, seja a qualquer outro Estado ou município cujos líderes tenham, eventualmente, ido contra sua pretensão política. É o mínimo que se pode esperar de um chefe de Executivo que pertence a um partido, naturalmente, mas que quando eleito se torna o governante de todos e que não pode confundir assuntos administrativos com posturas políticas.
Na verdade, porém, isto ainda é insuficiente. Pois o modo como o sr. Motta se expressou e, adicionalmente, a forma como este ministro vem se comportando desde o começo são atitudes efetivamente incompatíveis com o que se poderia chamar de ação política elevada. A natural confiança em relação ao presidente da República, a certeza de que não governa deste modo vingativo, isto, neste momento, não resolve todo o problema. Nem mesmo uma eventual (e muito difícil) retratação do sr. Motta resolveria. O que de fato seria de esperar em um governo efetivamente sintonizado com os mais importantes anseios da população era o afastamento sumário de um elemento que com seus destemperos acaba prestando um desserviço ao Governo.
O presidente Fernando Henrique Cardoso não precisa deste tipo de defesa, o Brasil não necessita desta forma de atuação política. Ademais, a democracia supõe outro tipo de atitude. Neste momento importante da vida nacional, outra postura se impõe aos homens públicos, em todos os níveis. Ameaças ou vinditas poderiam ser normais em outras épocas. Hoje, a situação é diferente e o próprio interesse nacional reclama uma postura mais elevada. O Paraná representa muito no conceito nacional e não pode ser posto em situação como esta colocada pelo sr. Sérgio Motta.
União, Estados e municípios precisam hoje estar unidos no mesmo propósito de trabalho e desenvolvimento. Qualquer outra postura neste momento é irracional e inconcebível. Mais que isto, é verdadeiramente inaceitável, exigindo uma rápida e firme reação do Governo Federal, que não pode sequer se omitir face a uma declaração tão grave e leviana.

mockup