Editorial
O setor urbano em que mais rapidamente os investimentos provocam retorno é o da construção civil. Gera empregos diretamente, inclusive junto a uma faixa bastante grande da mão-de-obra menos qualificada, ativa vários segmentos da economia e responde por uma das mais íntimas aspirações do ser humano, que é a de ter uma casa própria. Vale até rememorar que o grande desenvolvimento que o Brasil viveu no começo dos anos 70 teve a construção civil na linha de frente, com milhares de residências construídas, além de muitas obras de saneamento básico, tudo alavancado pelos recursos do FGTS, da poupança, das letras imobiliárias, dando a impressão de que finalmente o Brasil estava enveredando pelo seu destino de progresso. Os desacertos ocorridos à época, porém, acabaram prejudicando tudo, fazendo o país mergulhar na inflação galopante e na recessão terrível, produzindo anos de desespero que não foram superados nem mesmo pela redemocratização.
Hoje, com um plano de estabilização muito bem formulado e uma economia que dá evidentes sinais de fortalecimento, o desafio volta a ser o de produzir mais, criando empregos e abrindo possibilidades para que a população supere os problemas, atingindo nova situação de vida. Não há como deixar de reconhecer os bons resultados já conquistados nestes quase três anos de Plano Real, iniciado com a formulação do Fundo Social de Emergência, que abriu caminho para a nova moeda e tudo o mais. Uma expressiva parcela da população brasileira superou, nestes anos, os estágios mais dramáticos do abandono e da desesperança. Entretanto, neste momento, é crucial o encontro de fórmulas capazes de garantir que aumente o total de pessoas acima da faixa da miséria, ao mesmo tempo em que se deve cuidar do crescimento contínuo da economia, sem inflação.
Há alguns dias, o Ministério do Planejamento já havia antecipado a disposição do Governo em investir na construção civil. Agora, o anúncio de medidas tendentes a diminuir os juros para os projetos habitacionais, com uma preocupação adicional (e muito importante, igualmente) quanto à redução no percentual de endividamento dos mutuários, completa o quadro. Trata-se, sem dúvida, de um direcionamento dos mais corretos dentro do plano mais geral que visa criar condições de vida melhores ao povo, com mais empregos, ao mesmo tempo em que se atende às necessidades de habitação de um número crescente de brasileiros.
Ademais, a época é das mais propícias para este empreendimento. Uma das causas principais do fracasso do grande plano habitacional criado com o FGTS e o estímulo à poupança foi a inflação que se seguiu. A criação da correção monetária, considerada um meio para estabelecer a convivência da inflação com o crescimento econômico, revelou-se um erro a longo prazo. Um programa que deveria se realimentar acabou destruído pela inflação crescente, acompanhada de outras medidas igualmente danosas. Percebeu-se, infelizmente muito tarde, que era preciso primeiro conter a inflação para depois tratar de estimular o crescimento.
Agora, embora o plano de estabilização ainda enfrente muitos obstáculos, a situação é mais propícia. A conclusão das reformas estruturais, o enxugamento do Estado e a contenção do chamado Custo Brasil apontam para o sucesso do controle da inflação. Com isto, programas de estímulo ao chamado crescimento auto-sustentado tem maiores possibilidades de sucesso. E este projeto que visa estimular a construção civil com redução nos juros é sem dúvida um passo muito positivo.





