Apesar das queixas da Argentina, o Brasil está sendo bastante prejudicado com o Mercosul. Segundo os mais recentes levantamentos, as importações de produtos agrícolas pelo Brasil responderam por 40% do déficit da balança comercial brasileira em 96. E ponderável parcela destas compras vem precisamente dos países parceiros do Mercosul: é trigo da Argentina, arroz do Uruguai, soja do Paraguai. O Brasil importou US$ 3,2 bilhões dos nossos parceiros deste mercado comum e exportou US$ 877 milhões.
As autoridades nacionais dizem que isto não preocupa, porque o mais importante é o Mercosul. Pode até ser. Mas a verdade é que o Brasil não pode aceitar de modo passivo situação tão incômoda. Se existe déficit comercial elevado como consequência da produção insuficiente ou até da necessidade de compra de equipamentos que não temos por aqui e que vão propiciar bases para o crescimento, ainda se aceita. Mas ter déficit por causa da importação de produtos agrícolas já é inaceitável, em princípio. E se isto decorre da situação de um mercado comum em que, pelo que parece, se usa a importação como meio de ajudar o vizinho, a coisa se complica. E é ainda pior quando há este desacerto: o Brasil comprando US$ 3 bilhões em mercadorias dos vizinhos e vendendo menos de US$ 1 bilhão.
Há, naturalmente, duas vertentes nesta questão. A primeira, e sem dúvida mais séria, diz respeito à própria questão envolvendo a agricultura. Não se concebe que um País com o potencial do Brasil importe produtos agrícolas. Pode-se considerar algumas eventuais exceções, como o trigo, porque o Brasil ainda não é autosuficiente na produção tritícola. Entretanto, o que mais chama a atenção é justamente saber que há mais de uma década se lançou um esforço imenso no sentido de conseguir a autosuficiência nacional na produção do trigo. E quando isto estava quase se concretizando, houve recuo, como quase sempre acontece em relação à agricultura brasileira.
E aí está o Brasil, importando não só trigo, mas arroz, soja, até milho. Enquanto isto, a terra continua a esperar a vontade do governo para propiciar apoio ao homem do campo, que jamais se negou a fazer a sua parte. Com isto, não apenas amplia-se o déficit comercial, mas também perde-se produção, trabalho, oportunidade para todo um povo, que não encontra apoio e passa fome sobre uma das terras mais férteis do mundo.
Há, por outro lado, a questão do Mercosul. O Brasil precisa, sem dúvida, comprar produtos de seus parceiros. E como o que eles têm é quase o que nós temos, por serem países com a mesma tradição agrícola (embora de extensão territorial menor), os interesses comerciais regionais levam à necessidade de adquirir o que poderíamos produzir aqui. Não seria tão mal se houvesse a contrapartida, se a balança estivesse ao menos equilibrada, se comprássemos até mais de US$ 3 bilhões em soja, trigo ou arroz, mas, paralelamente, estivéssemos vendendo pelo menos o mesmo valor para os vizinhos. Uma política do ‘venha a nós’ pode ser boa para os outros membros do Mercosul mas, seguramente, não é a que mais interessaria ao Brasil.
Isto significa, no mínimo, que o Brasil precisa investir mais na produção agrícola para, em primeiro lugar, acabar com a dependência atual. Depois, será necessário organizar a política de troca com os vizinhos mais próximos. Ninguém pode, em sã consciência, ser contra o Mercosul, que é importantíssimo e constitui excelente abertura para o desenvolvimento integrado do chamado Cone Sul. O que não pode é o Brasil ficar com a parte pior em toda esta questão.

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