A explosão da inflação em janeiro - saltando de 0,73 em dezembro para 1,77, portanto, mais do que o dobro em 30 dias - decorre de dois fatos que se
inter-relacionam. O primeiro é que não se mexe, impunemente, com os preços dos combustíveis. E o segundo, levando em conta que os reajustes sucessivos feitos nos preços de álcool, gasolina e diesel foram autorizados pelo Governo, é que a principal causa da inflação brasileira continua a ser a trapalhada administração oficial dos preços controlados. Especialistas já haviam afirmado que 40% da inflação de 1996, a mais baixa das últimas décadas, tinham sido consequência de atos oficiais. E neste começo do ano o mesmo motivo está em cena.
Antecipar que o índice de fevereiro será bem inferior ao que se observou no primeiro mês do ano é uma previsão das mais fáceis. Apesar de se ter de contar com os efeitos da CPMF, que só começou a ser cobrada em fins de janeiro, e mesmo levando em conta alguns problemas decorrentes das chuvas, que podem causar altas em determinados produtos, persistem os fatores que, ao longo dos últimos meses, determinaram índices bastante baixos de inflação.
O que, porém, deve ficar claro é que outras altas, ainda mais causadas pelo próprio Governo, podem ameaçar todo o programa de estabilização, pois os fatos se inter-relacionam. Aumentos num só item produzem efeitos em cascata que não podem ser desprezados.
Há a considerar, ainda, que o Governo pode, caso continue a agir com leviandade na administração das tarifas públicas e dos preços controlados, criar outros pontos de pressão, num momento delicado. Fala-se, por exemplo, com certa insistência, em um reajuste nos preços da energia elétrica a ser autorizado nos próximos dias. O percentual anunciado desta possível alta está entre 5 e 10%, para compensar a inflação do ano passado. Mas um aumento, agora, vai representar outro fator de pressão inaceitável e potencialmente perigoso.
O Brasil ainda não venceu a inflação. Os excecpionais e alentadores resultados obtidos nos últimos meses são fatos valiosos e importantes. Mas não significam que a batalha esteja vencida, que não haja riscos de retorno aos tempos ainda recentes. Deve-se lembrar, também, que o objetivo do Plano Real é a estabilidade, e isto não se faz com saltos abruptos de uma hora para outra em preços que são vitais para a economia. Estabilidade significa uma taxa anual em torno de 3% a 4% e isto só será conseguido mediante um trabalho consistente e continuado, tanto do povo quanto, principalmente, do Governo.
Um dos fatores decisivos para a escalada inflacionária brasileira foi a indexação total da economia. Acabando-se com ela, os índices de inflação cairiam naturalmente, mas não suficientemente. Outras medidas foram tomadas no desenvolvimento do Plano Real e a soma delas e de uma crescente conscientização da população resultaram nesta agradável situação de inflação cada vez mais baixa.
É isto que não pode ser perdido com trapalhadas e medidas intempestivas. O alto índice de janeiro não deve assustar. Mas precisa ser colocado como uma advertência ao Governo federal de que não pode administrar de modo aleatório os preços controlados ou a política tarifária. O preço disto será caro demais para o País.

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