Faltam ainda três votações - mais uma na Câmara dos Deputados e duas no Senado -, além da apreciação de numerosos destaques, mas a decisão dos deputados na noite de anteontem, depois de semanas de choques e desentendimentos políticos, é um passo significativo na direção das reformas fundamentais para assegurar o êxito do Plano Real. O Executivo mostrou, no voto, que tem parlamentares em número suficiente para aprovar mudanças na Constituição, apesar das obstruções dos partidos de oposição e das manobras de deputados insatisfeitos cujos partidos não são de oposição.
A vitória, em primeiro turno, do projeto de reeleição não é, nem de longe, o mais importante para o povo brasileiro no momento. É somente do interesse do presidente da República - e dos governadores e prefeitos -, mas abre caminho para a aprovação do que realmente interessa à Nação. Se o Governo tem condições de fazer passar uma emenda de interesse tão relativo, deve ter também, com muito mais razão, força suficiente para fazer passar as reformas que estão se arrastando pelo Legislativo há dois anos.
As reformas tributária, administrativa e da Previdência, se forem profundas e verdadeiramente inovadoras, levarão o País para outro patamar, bem distante e diferente do atual. Agora que o menos importante passou - ou está passando -, a Nação espera que, finalmente, o Congresso se volte com a mesma disposição para o mais importante, isto é, as tarefas que há muito já deveria ter enfrentado e resolvido.
Que ninguém esqueça, mas o Congresso foi convocado extraordinariamente neste começo de ano - do qual um mês inteiro já se foi - para apreciar e votar também outras matérias, não só a reeleição. E entre elas estão as reformas que a sociedade confiou ao presidente Fernando Henrique Cardoso quando o elegeu em 1994. Há tempo, se o Congresso quiser e tiver o mesmo apetite de anteontem, para apressar a tramitação de todas elas antes do término da convocação extraordinária.

Todos os chefes de
Executivo têm agora a
obrigação de justificar
o segundo mandato



A pressa se justifica não só pelo atraso já incorrido e a importância das matérias, mas também porque o presidente precisa mostrar ao eleitorado que cumpriu a palavra empenhada nos palanques. Poder candidatar-se à própria sucessão é uma coisa, outra é vencer a eleição.
Hoje, o presidente Fernando Henrique Cardoso está em excelente situação junto à opinião pública. As eleições presidenciais, entretanto, só vão se realizar em mais de um ano e meio. E como a maior parcela do prestígio do presidente decorre do sucesso do Plano Real, é óbvio que o sucesso eleitoral depende da continuidade do programa.
O mesmo ocorre em relação aos governadores e até aos prefeitos que estão começando agora sua caminhada. Todos, como se viu na movimentação feita para garantir os votos da Câmara em favor da reeleição, estão altamente empenhados em obter o direito de disputar outro mandato. E a questão é a mesma: poder se candidatar não é garantia de vitória. O compromisso do presidente da República, dos governadores e dos prefeitos, agora, é até maior do que antes, pois como candidatos à própria sucessão serão também submetidos ao julgamento de sua gestão.
Será muito importante que a aprovação da emenda na Câmara marque o começo de uma ação firme por parte de todos os chefes de Executivo, a fim de cumprir seus compromissos com o povo. Caso contrário, a reeleição possível pode se transformar numa grande derrota.

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