Editorial
O Departamento de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo estima que a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira provocará aumento de 1% nos custos industriais. Este resultado, bastante elevado se comparado com os padrões atuais da inflação brasileira, decorre do efeito cascata do tributo, que é cobrado em toda operação bancária que ocorrer dentro de cada etapa da cadeia produtiva. A Fiesp calcula que o impacto médio de 1% ocorre quando o processo produtivo envolve pelo menos oito elos da cadeia. Como a inflação média é bem inferior a isto, a CPMF é um fardo pesado não só para as pessoas comuns que têm conta no banco.
A CPMF onera a produção e os correntistas do sistema bancário nacional. Onerando a produção, há forte tendência para repassar o custo ao preço, o que onera duas vezes o correntista: nos pagamentos de suas contas e no preço dos produtos em geral. Por isso é importante agora observar como vão se comportar o sistema produtivo e o comércio, além dos agentes financeiros e os próprios consumidores.
Mas o consumidor não está perdido nesse matagal. Em primeiro lugar, a indústria e o comércio terão dificuldades para passar adiante o custo do imposto. Isto porque os consumidores não estão nem dispostos nem endinheirados o suficiente para pagar mais pelas mesmas coisas que antes. Com o Plano Real, o Brasil vive uma situação em que todos os participantes do processo produtivo devem olhar uns para os outros e ajustar seus custos ao preço que os demais querem pagar. Se não fizerem isso, as mercadorias vão encalhar no comércio e o comércio cortará encomendas à indústria e a indústria produzirá menos. Todos perdem, indústria, comércio, sistema financeiro e consumidores, que vão ter menos opções de compra.
A CPMF obriga
as empresas a
melhorar a
produtividade
Este quadro, se não é muito animador - pois a CPMF é uma realidade -, mostra o alto grau de interdependência alcançado com a estabilidade. Durante a hiperinflação - ou quase isso -, toda a lógica do sistema estava em frangalhos e não eram mais visíveis as relações de interdependência. Cada um queria tirar vantagem sobre o outro para compensar seus riscos e garantir o dia seguinte do seu negócio. Pouco importava se o outro ia pagar mais caro, porque ele ia fazer a mesma coisa com o seguinte. Todos passavam adiante a inflação. Na nova situação da economia brasileira, não dá mais para fazer isso.
A estabilidade exige outro comportamento e, apesar de alguns abusos anotados pela imprensa, já estamos vendo que há uma nova mentalidade em desenvolvimento. Com efeito, a Federação das Indústrias do Estado do Paraná antecipou, há alguns dias, que ponderável parcela de seus membros não pretende repassar os custos da CPMF aos preços. Fariam ajustes internos e até reduziriam as margens de lucro, segundo a idéia de que o mais importante hoje vender mais para ganhar na quantidade. O lucro virá da quantidade vendida e da produtividade obtida.
É o que se espera do empresariado, de modo geral, tanto na indústria quanto no comércio. Se, de fato, o estudo da Fiesp está certo, isto significa que a indústria terá de se reorganizar, buscando maior competência, racionalizando a atividade, reduzindo margens e mantendo os preços de mercado. E isto não será feito porque os empresários viraram santos, mas porque as relações dentro do mercado mudaram. Assim como as interdependências ficaram claras, todo mundo agora sabe o que quer, o que pode e o que não pode fazer, se pretende sobreviver.





