O bom senso está cada vez mais distante desta verdadeira batalha em que foi transformada a questão da reeleição. O mais grave dessa situação é que todos os demais problemas e as grandes questões nacionais foram para segundo ou terceiro plano, apesar de todo o País saber que a falta das soluções realmente importantes ameaça detonar o programa de estabilização, possibilidade que é, aliás, o principal argumento do presidente Fernando Henrique Cardoso para pleitear um segundo mandato.
O sucesso do programa de estabilização foi o maior cabo eleitoral do presidente Fernando Henrique Cardoso. Por causa desta nova situação, o Governo conta com um prestígio jamais obtido. Entretanto, o descarte temporário das reformas - depois de passsarem meses travadas no Congresso - põe em situação delicada a credibilidade do Governo e a estabilidade da economia. São coisas que não se conquistam por decreto. Há certas bases que precisam estar muito firmes para que o edifício de uma economia estável se mantenha. E o Governo dá sinais de estar se desviando do objetivo maior, esquecido de que o fundamental no processo não é o direito de disputar novo mandato para os chefes de Executivo, mas a garantia do processo econômico.
O que o presidente que quer reeleger-se não pode perder de vista é o fato de o grande apoio da população ao seu governo fundamentar-se no sucesso obtido até agora pelo Plano Real. É este êxito, inclusive, que leva o presidente a pretender o direito de disputar outro mandato. Também é esta situação que dá a ele a certeza de que, podendo disputar, dificilmente perderá. Porém, se deixa de lado o programa e se descuida da dura e incompleta batalha pelas reformas estruturais, o chefe do Executivo coloca o próprio plano em risco. Isto significa que pode até conquistar o direito de se candidatar de novo, mas enfrentará as urnas em situação muito adversa.

A guerra da
reeleição coloca
em perigo a
estabilidade da
economia

A questão tem um aspecto subjetivo importante e compreensível. O presidente se sente responsável pelo processo que iniciou, enquanto ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, e que foi, sem qualquer dúvida, uma das mais expressivas soluções já vistas no Brasil. E tem o humano desejo de prosseguir na tarefa que, naturalmente, não se esgota em um nem em dois mandatos. Entretanto, corre contra o tempo. Se não conseguir, agora, a aprovação da emenda para a reeleição, não terá tempo hábil para isto no próximo ano. Mas se continuar a dar ao assunto toda a atenção, como acontece, deixa o programa em perigo real.
O déficit público elevado, o adiamento das reformas, os recentes reajustes de preços e a CPMF - também um remendo para tentar resolver o problema da falta de recursos para a Saúde -, isto tudo traz entraves perigosos para a estabilização. E se o pior acontecer - caso em que a vitória em 98 seria um sonho impossível -, restará ao presidente apenas conduzir o processo de sua sucessão com espírito de estadista. Prestará, sem dúvida, um serviço maior ao País do que agora, quando levanta a bandeira do ‘sem mim tudo afunda’ e coloca em perigo o que já foi conquistado.

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