Algumas vezes as verdades mais evidentes parecem ser as mais difíceis de reconhecer. Sua evidência é ofuscante como o sol e esse atributo acaba sendo a causa da resistência. Simplesmente porque ninguém pensa que poderia ser tão simples, claro, cristalino. Tivemos mais um exemplo disto esta semana. O secretário de Produtos de Base do Ministério da Indústria e do Comércio, Maurício Assis, anunciou, em palestra proferida durante o último Seminário Internacional do Café no Rio de Janeiro, que o Governo federal pretende incrementar a produção agrícola para reduzir o déficit da balança comercial brasileira. Exatamente porque na agricultura estão os produtos com maior potencial para elevar o valor de nossas exportações.
Esta é uma das muitas verdades evidentes para as quais o Brasil tem voltado as costas desde que iniciou a industrialização, na década de 50. Mesmo antes a agricultura nunca viveu num jardim de rosas, mas a situação ficou ainda pior quando sucessivos governos a esqueceram, apesar de a atividade ser potencialmente lucrativa em menos de um ano.
Falando especificamente do café, o secretário sugeriu como meta o aumento das vendas externas em cerca de 500 milhões de dólares. É um valor plenamente realizável, ainda mais quando se recorda do papel que a cafeicultura representou para o País durante décadas. No ano passado, a receita de exportação produzida pelo café atingiu 2,1 bilhões de dólares, com o que o produto ficou em oitavo lugar na pauta das exportações brasileiras.
Houve uma época em que o café foi o líder das exportações brasileiras. Para um país que buscava o desenvolvimento em todas as áreas, a dependência era excessiva, mas não se pode esquecer que a renda do café financiou a montagem da indústria automobilística brasileira, tendo sido também a base do desenvolvimento de várias regiões, entre elas o Norte do Paraná. Hoje, o café pode muito bem prestar outros serviços à economia brasileira.
É um erro deixar de lado não só a cafeicultura, mas toda a agricultura, assim como a pecuária. Durante várias décadas o Brasil ignorou sua vocação agrícola, pensando que ela não interessava à industrialização. Foi um grave erro. Não se pode jamais perder de vista que a agricultura tem um papel tão relevante que abandoná-la constitui um verdadeiro crime.

Em tempos de
déficit, o Governo
redescobre a
agricultura


A boa agricultura controla os fluxos migratórios, distribui renda, multiplica riquezas, abastece o mercado interno, forma estoques reguladores e além de tudo produz excedentes exportáveis. Aliás, produz a comida que os operários da industrialização vão precisar para manter a produção. Agora, descobre-se outra virtude da agricultura: ela também é capaz de reduzir déficits comerciais.
O café é um dos produtos que pode ajudar nesta nova batalha. Mas há outros, como citou o secretário do MICT, entre os quais a fruticultura e o setor de carnes. E há também os que podem ajudar a reduzir importações, o que também é importante para diminuir o déficit. Basta planejar e estimular o plantio de arroz, algodão e trigo. Durante anos o Brasil tentou chegar à auto-suficiência em trigo e quando estava quase chegando lá o incentivo à produção foi abandonado.
Com seu potencial, o Brasil pode produzir muito mais excedentes para exportação. Mas há muito mais benefícios do que simplesmente o aumento das vendas externas ou a redução das importações. A agricultura é capaz de produzir milhões de empregos, num momento em que a conjuntura econômica obriga a indústria a demitir. A agricultura é capaz de desafogar as grandes cidades e capitais, hoje favelizadas com gente cujos pais e avós, e também os pais desses avós, saíram dos campos para tentar uma vida melhor fora dele.
O campo é uma solução barata e fantástica para muitos dos nossos piores problemas. Importa que, ao lado da intenção anunciada pelo dirigente do MICT, haja medidas efetivas de apoio à produção para se atingir um objetivo maior que é, sem dúvida, o grande caminho para o progresso do País.

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