Editorial
O presidente Bill Clinton inicia hoje seu segundo mandato à frente do Executivo dos Estados Unidos, após uma incontestável vitória sobre o candidato republicano Bob Dole. Clinton não é apenas o primeiro presidente americano reeleito desde Ronald Reagan, é também o primeiro democrata a conseguir um segundo mandato desde Franklin Delano Roosevelt, que obteve quatro mandatos presidenciais sucessivos, morrendo na Casa Branca antes de completar seu último período. As sucessivas vitórias de Roosevelt foram possíveis porque na época o presidente podia candidatar-se à reeleição quantas vezes quisesse. Só depois de Roosevelt a regra mudou, permitindo aos presidentes candidatar-se à reeleição uma única vez.
Os mandatos desse e de outros presidentes americanos reeleitos sugerem uma comparação com a polêmica emenda da reeleição que é, hoje, o principal tema político brasileiro. Franklin D. Roosevelt foi eleito em 1932, época em que os Estados Unidos passavam por uma profunda depressão econômica, que já havia quebrado a Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Roosevelt lançou um grande programa de recuperação que chamou de New Deal e realizou uma verdadeira revolução econômica que lhe garantiu tranquila reeleição em 1936. Quatro anos depois, com o mundo conflagrado pela guerra na Europa, parecia até perigoso mudar o comando, o que valeu novo mandato a Roosevelt. E em 1944, em plena guerra, também não era muito seguro mudar o comando, e Roosevelt foi para o quarto mandato. Não fosse a morte, talvez ainda disputasse o cargo mais uma vez.
Mas os norte-americanos haviam lutado pela criação da República para garantir o poder ao povo. A reeleição de seus presidentes sem nenhum limite parecia uma contradição aos ideais republicanos, tendendo a criar um quase rei. Foi posto. então, um limite pelo qual o presidente pode pleitear somente outro mandato, pois quatro anos eram mesmo insuficientes para completar obras importantes num país de dimensões continentais.
Ademais, o fato de poder ser candidato à própria sucessão não é garantia de vitória. O próprio Clinton derrubou George Bush, presidente que tentava um novo mandato. Jimmy Carter também foi derrotado ao pretender a reeleição. E, na verdade, há dois anos poucos apostavam numa segunda vitória de Clinton. Seu partido havia sofrido uma dura derrota nas eleições parlamentares e Clinton enfrentava, naqueles dois anos, um Congresso majoritariamente oposicionista.
Quando estava na
metade de seu
mandato, Clinton
parecia derrotado
A virada que reelegeu Clinton merece estudos. Pressionado por um Congresso de maioria republicana (e o Legislativo americano é mais forte que o brasileiro), o presidente acabou assumindo muitas teses da oposição. Para este novo mandato, foi além: convidou republicanos para seu Gabinete. É um jogo camaleônico, mas faz parte da ação política. Nos Estados Unidos, quando um presidente assume seu primeiro mandato começa, imediatamente, a tratar da reeleição. Passa quatro anos pensando nisso. Mesmo assim, por vezes não consegue. Isto significa que se o presidente não atender de algum modo a população, o cargo não lhe garante nada. Bush ganhou até uma guerra, a do Golfo, atingiu o máximo de popularidade na época, e acabou perdendo a reeleição dois anos depois.
Reeleição permitida não é reeleição garantida. O presidente Fernando Henrique Cardoso, totalmente envolvido no esforço para conseguir se candidatar à própria sucessão, deve ter isto em mente. Poder ser candidato é requisito fundamental, mas não é garantia. Hoje, FHC tem enorme prestígio, a mesma situação de George Bush na metade de seu mandato. Mas, como Clinton provou, a outra metade do mandato pode ser a mais importante.





