Editorial
Os primeiros indicadores econômicos do ano divulgados em São Paulo são tão bons que fazem os economistas indagarem se o Governo vai aplicar algum freio para desaquecer as atividades. O quadro é de aumento geral dos pedidos do comércio à indústria. Conforme o setor, o volume de encomendas é 4% a 15% maior do que em janeiro de 1996 - consequência do bom movimento registrado no comércio em dezembro passado. Ao longo de 1966, os números em todos os setores são significativos, da indústria automobilística aos fabricantes de papelão. A inflação baixa em todo o período é o que mais chama a atenção, pois o Brasil sempre ouviu falar - e podia constatar no bolso - que aumento de consumo causava aumento de inflação.
A estabilidade da moeda faz cair alguns tabus, entre eles esse da alta de preços em função do aumento da demanda. Nem sempre é assim - ou melhor, uma coisa não tem nada a ver com a outra se a oferta acompanha a procura. Se há escassez, aí sim os preços sobem. Haverá escassez de mercadorias e serviços neste primeiro trimestre de 97? Esta é a dúvida que está na base das preocupações sobre o aquecimento da economia.
O Governo esperava que houvesse uma retração natural do mercado neste começo de ano, em função do aumento dos combustíveis e da CPMF, que entra em vigor dia 23. Talvez ainda espere que isto aconteça e, acontecendo, não acione nenhum freio mais brusco nas atividades. Esta semana foram tomadas medidas restritivas nos cartões de crédito e se a CPMF produzir o efeito colateral que o Governo espera, é possível que as restrições parem por aí. A economia, penhorada, agradeceria.
Só em um mês
será possível ver
os efeitos da
CPMF na economia
O Brasil necessita hoje, mais do que taxas de inflação perto de zero, de produção e empregos para melhorar a oferta - e com isso reduzir as importações -, melhorar também as exportações, a renda e a qualidade de vida da população. A mais leve ameaça a este avanço deixa a população preocupada. É certo que não se pode perder de vista que a inflação ainda é um inimigo forte. Embora os resultados obtidos no ano passado tenham sido expressivos, inflação de 9% a 11% ao ano - segundo os vários índices - é muita coisa para um país com moeda tão ou mais forte que o dólar. O projeto de estabilização exige uma taxa anual em torno dos 3%, com variações razoáveis. Mas isto não será obtido com mais recessão do que já tivemos.
Os resultados do ano passado evidenciam que o crescimento da atividade econômica não pressiona a inflação. O crescimento auto-sustentado vem funcionando. O aumento da demanda, em consequência de uma moeda forte, tem sido compensado pelo crescimento da produção ou pela importação. E se tivermos um novo surto de recessão, as exportações vão diminuir ainda mais e as importações crescerão muito mais, aumentando significativamente o déficit comercial. Isto não interessa ao País.
O estabelecimento, agora, de freios à atividade econômica pode ser profundamente danoso a todo o processo. O Governo deve aguardar a entrada em vigor da CPMF para fazer avaliações mais profundas e seguras. Mesmo que não haja repasses aos preços, como a maioria dos empresários indica, o imposto do cheque vai promover um enxugamento do meio circulante. Só depois de um mês, pelo menos, será possível saber se haverá necessidade de intervenções adicionais. Qualquer outra coisa, agora, ameaça o esforço produtivo que a sociedade vem fazendo.





