Há um mês, um grupo de guerrilheiros mantém dezenas de pessoas como reféns na residência do embaixador do Japão em Lima, exigindo, para soltá-los, a liberdade de cerca de 400 companheiros presos pelas autoridades peruanas. Não importa o desfecho que o caso tenha, o sequestro é um desafio levantado por grupos ilegais contra a sociedade. Por mais polêmico que possa ser o presidente Alberto Fujimori, devido ao fechamento do Congresso e do Judiciário em seu primeiro mandato, trata-se de um governo legítimo e com assento entre as demais nações civilizadas do planeta. Já o grupo que tomou o prédio de assalto e fez reféns para serem usados como meio de barganha, é ilegítimo em sua origem e ilegal em sua forma de agir. No entanto, em muitos casos a sociedade tem se mostrado impotente para evitar ou combater o terrorismo.
Esta aparente fragilidade coloca em questão os próprios fundamentos da vida politicamente organizada, neste final de século 20. O terrorismo dá a impressão de ser mais forte que os organismos legais. No caso peruano, 74 pessoas permanecem indefesas e totalmente à mercê dos humores e deliberações de um grupo que não tem limites de nenhuma espécie.
De fato, o terrorismo tem uma vantagem inicial sobre a lei e o sistema de segurança da sociedade. Age de surpresa, ataca alvos civis indefesos e, quando não mata imediatamente, torna pessoas inocentes seus reféns. Os que vivem na ilegalidade, quer se chamem lutadores pela liberdade, rebeldes em defesa do povo ou criminosos comuns - o que, genericamente, todos são -, não reconhecem nenhum obstáculo legal ou moral. Usam a violência como um recurso normal, matam se acham necessário, destroem, agridem sem nenhum escrúpulo. Já a sociedade civilizada e politicamente organizada tem que obedecer à lei e, em muitos casos, também aos mandamentos éticos e morais.



Há um mês, um
grupo terrorista põe
em cheque a sociedade com
seu ataque em Lima


O terrorismo se aproveita dessa limitação que a sociedade se auto-impõe. Mas sua vantagem inicial pode ser anulada se a sociedade souber se defender melhor dessa ameaça. Assim como existem as leis para os tempos de paz, existem as dos tempos de guerra e seus códigos específicos. Hoje, o mundo civilizado necessita de um código anti-terror, com validade internacional. Salta aos olhos que a civilização precisa se aparelhar melhor para enfrentar desafios que tentam solapar a estrutura social. Se o terror se impõe, perde-se a credibilidade do sistema legal construído pelo homem ao longo dos séculos. E há o risco de que essas situações se multipliquem, atingindo um volume tal que pode levar o homem de volta às cavernas.
Já se fazem esforços para unir forças policiais dos diversos países a fim de enfrentar melhor o desafio do crime organizado. Mas face ao terrorismo ainda não se fez nada importante, a não ser o bombardeio americano ao palácio de Muammar Kadhafi na década de 80.
As nações e governos legitimamente estabelecidos têm o direito e o dever de se proteger do terror como já o fazem com relação ao crime comum. Essa proteção é vital para a continuidade da civilização. O que está em jogo em Lima não é apenas a credibilidade do governo e da sociedade peruana. Toda a civilização existente hoje em nosso planeta é afrontada. E, no entanto, não sabe como agir porque não dispõe de um código de conduta e enfrentamento dessas situações. Procura-se negociar, ganhar tempo, manobrar, às vezes corta-se a água e a luz, tudo conforme o gosto de cada um e a situação.
O Peru vive um drama que não é só dele, embora a guerrilha Tupac Amaru seja de lá. Isto é o que menos importa. O terrorismo está por toda parte e o mundo ainda não sabe como lidar com ele. Naturalmente, evoluiríamos muito pouco se o governo peruano resolvesse acabar com tudo simplesmente fazendo o bombardeio aéreo da casa do embaixador.

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