Editorial
O empresariado brasileiro tem mostrado, já há alguns anos, uma importante evolução nos seus conceitos e na forma de encarar os desafios que se colocam em sua atividade. Este crescimento se confirma com a pesquisa da Fiep com as indústrias do Paraná - publicada na edição de ontem desta Folha - em que se revela que a grande maioria não pretende repassar aos preços a CPMF, que começa a ser cobrada dia 23. Não se trata de bom mocismo ou de marketing empresarial. É, apenas, consequência da reviravolta que se opera na economia desde o lançamento do Plano Real. Nada pode ser repassado aos preços porque haverá efeitos negativos nas vendas, pelo simples fato de que a economia brasileira está aberta, o consumidor reina e a regra do jogo é a competição. Quanto mais barato, mais se vende.
A maioria dos empresários do Paraná demonstra sensibilidade e maturidade. Por muito tempo prevaleceu no Brasil a lei da vantagem - aquela de Gerson -, em que o interesse maior era tirar o máximo do consumidor em troca do mínimo esforço para satisfazê-lo. Estavam inclusos os próprios funcionários. Isto se refletia em abusos nos preços, baixos salários e, no âmbito das ações de governo, em má escolha das prioridades de desenvolvimento.
Esta mentalidade está mudando substancialmente. Os salários ainda são baixos, mas a mão-de-obra qualificada vem conquistando aumentos reais importantes. Hoje, não há líder empresarial que desconheça a relação entre vendas, de um lado, e salários. Quanto melhor a remuneração do trabalho, maior o consumo e maior a venda. Parece óbvio - e é -, mas durante décadas o Brasil praticou o inverso disto, pagando mal, vendendo pouco e aumentando preços para zerar as perdas de faturamento. Finalmente, o Brasil não está mais de cabeça para baixo.
Os efeitos
da CPMF podem
não ser tão
duros como
se temia
Assumir parte ou todo o custo da CPMF constituirá, sem dúvida, um desafio. Há empresas que pensam em reduzir a margem de lucro, o que está de acordo com a visão dos tempos atuais, em que vale mais ganhar menos por unidade para aumentar o faturamento na quantidade vendida. Como o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná, José Gomes Carvalho, ilustrou, cobrar do consumidor o novo imposto pode encalhar a mercadoria, pois hoje a concorrência é a regra.
Para toda a economia brasileira, a cobrança da CPMF - que vem em seguida a dois reajustes de preços dos combustíveis - é um grande desafio. Combustíveis e matrículas escolares já fizeram a inflação saltar de 0,17% para 0,78% no espaço de quatro semanas encerrado na primeira semana deste mês. São números da Fipe em São Paulo. O repasse da CPMF aos preços agravaria ainda mais este quadro. Sem dúvida, a CPMF terá efeitos fortes sobre a economia, independentemente do desejo dos empresários, pois atinge o bolso da população por todos os lados, não só pelos preços.
Entretanto, se houver adequada reação, como a que se está observando nos setores produtivos, isto será absorvido pelo mercado sem traumas ao crescimento e ao combate à inflação.





