Editorial
Remonta a décadas a preocupação com o analfabetismo no Brasil. Considerado, corretamente, um dos mais sérios entraves ao desenvolvimento econômico e social, o analfabetismo tem sido alvo de campanhas as mais diferentes, ao longo dos anos, antes e depois do movimento militar de 1964. Com os militares, métodos tidos como esquerdistas, entre eles o de Paulo Freire, foram banidos e substituídos pelo Mobral, com resultados simplesmente ridículos. E o ensino de 1º e 2º graus - único que pode trazer conhecimento e cultura - foi propositadamente desqualificado para não formar contestadores do regime.
Hoje, temos de buscar o máximo rendimento do ensino, a fim de reduzir a zero o índice de analfabetismo. Nada menos que isto pode ser considerado aceitável por uma sociedade que busca o crescimento e está ganhando consciência de sua cidadania. E isto significa colocar na escola todas as crianças de 7 a 14 anos de idade. Pois se houver, primeiro, escola para toda essa faixa etária e, segundo, a obrigatoriedade da matrícula, em uma geração o analfabetismo será vencido.
Obviamente, não se deve deixar de lado os milhões de analfabetos que já passaram desta idade. Para esses é preciso haver campanhas e cursos especiais, pois não podem ficar à margem da vida social. Os adultos que se alfabetizam agora já perderam tempo e oportunidades. E quanto mais tempo o Brasil levar para integrá-los, maior o desperdício em talentos e geração de riquezas. Do mesmo modo, o prejuízo é grande para o País se não há vagas nas escolas. Não é por outra razão que a Educação é uma obrigação do Estado definida pela Constituição.
Se há prejuízo para o País, há também para as famílias. Mesmo quando as crianças trazem dinheiro para casa de algum tipo de trabalho - dinheiro da mendicância nas ruas, do biscate informal ou do biscate ilegal, como o serviço de transporte no tráfico de drogas.
O lançamento, em setembro do ano passado, do programa Toda Criança na Escola é uma tentativa séria de enfrentar o problema do analfabetismo. O Governo federal lançou o programa a partir da constatação, pelo IBGE, de que 2,7 milhões de crianças entre 7 e 14 anos de idade estão fora da escola. Legalmente, não são consideradas analfabetas. Mas, com o tempo vão aumentar aquele contingente de milhões que não sabem ler ou escrever após os 14 anos de idade. Se todas elas puderem frequentar a escola, será o começo de uma verdadeira revolução.
No último dia 7, começou o que deverá ser o grande mutirão para enfrentar este desafio. Trata-se de cadastrar todas estas crianças, de saber onde estão e de dar escola a elas. Este deve ser um compromisso de vida de todas as famílias que não têm recursos para pagar uma escola particular. Não deve haver desculpa para que uma criança não vá à escola. Nem por parte dos pais, nem por parte dos governos.
Recentemente, os vereadores de São Paulo aprovaram norma autorizando o prefeito a gastar menos do que a Constituição exige em educação. Isto é flagrantemente ilegal e um exemplo que não deve ser seguido por nenhum Estado. É um dos muitos absurdos que o poder público comete neste País.
O Ministério da Educação recomenda que, se não houver mais vagas nas escolas, as Secretarias devem criar alternativas e enviar ao Ministério projetos para ampliação ou construção de escolas. É a oportunidade que se abre para resolver de vez o problema. No Paraná, números oficiais informam que 82 mil crianças entre 7 e 14 anos estão fora da escola. Em relação ao total levantado pelo IBGE no Brasil, é um número pequeno. O que significa que, em nosso Estado, podemos chegar mais facilmente à consumação do conceito que dá título ao programa.





