Editorial
Um palco de guerra formado por três porta-aviões, cruzadores, destróieres, submarinos e mais 400 aviões militares, superbombardeiros B-52 e pelo menos um bombardeiro invisível F117, além de milhares de soldados embarcados e em bases militares por toda a região. É assim que está o Golfo Pérsico hoje. Os alvos já estão selecionados e até a data para o ataque estaria marcada: dia 17 de fevereiro, segundo o jornal inglês The Independent. Mas a guerra de nervos e a guerra fria já começaram. Pela segunda vez esta semana, o presidente da Rússia Boris Yeltsin alertou, anteontem, que se os Estados Unidos atacarem o Iraque, poderá ser o começo da 3ª Guerra Mundial.
Rússia, China e França são contra um ataque. Os EUA só obtiveram, há dois dias, o apoio da Inglaterra - caso Saddam não recue, frisou o primeiro-ministro Tony Blair. Estes são os países com poder de decisão no Conselho de Segurança das Nações Unidas. E anteontem à noite, subitamente, o presidente Bill Clinton recebeu o apoio do Brasil, que tem assento temporário no Conselho.
O que se joga no Golfo Pérsico é um jogo de interesses diversos. O Brasil quer o apoio dos Estados Unidos para ocupar uma cadeira permanente, com poder de veto, no Conselho de Segurança da ONU e, com isso, provar para a Argentina que é o país forte da América do Sul. Blair, que está visitando os EUA, quer dar uma mãozinha a Clinton, a quem admira, emprestando-lhe o apoio do Reino Unido num momento em que o apressado presidente americano corre o risco de perder não a guerra, mas o cargo na Casa Branca por não saber se conter diante das jovens estagiárias do palácio presidencial.
O próprio Clinton pretende amassar Saddam não só porque está escondendo armas químicas e biológicas na centena de palácios que mantém em Bagdá. Seria uma forma suficientemente viril de provar à opinião pública de seu país que não é macho só debaixo dos lençóis da Casa Branca. Saddam paga o pato, mas não sem motivo. Ele esconde também material para sua primeira bomba nuclear, programas de computador já descobertos para simular vôos de mísseis Scud, 6.400 foguetes com gás mostarda já encontrados e outras coisinhas, como 12 mil litros de toxinas de botulismo.
Tudo isso e mais um pouco já se sabia, algumas coisas desde o ano retrasado. Saddam também tem seus interesses, e o maior deles é vender mais petróleo para o Ocidente. Atualmente, sua cota de petróleo para exportação não dá nem para comprar remédio. Por isso, precisa criar um caso atrás do outro, e assim ter o que barganhar em troca de mais óleo.
É essa a situação. Só não se consegue entender por que Yeltsin está dizendo que um amasso em Saddam - condenável não só porque é bigodudo, mas porque milhares de iraquianos e iraquianas inocentes vão ser calcinados - pode causar a 3ª Guerra Mundial. Em todo caso, nem em seu país Yeltsin é levado a sério. Enquanto isso, Clinton pede orações e a nós outros resta esperar que a diplomacia competente aborte mais uma estupidez do baixo espírito humano.





