Os líderes do Movimento dos Sem-Terra não consideram o que fazem como invasão de propriedade. Preferem chamar a ação que lideram ou estimulam de ‘ocupação’. A diferença é irrelevante, pois o termo usado para descrever a ação não muda a realidade: trata-se de um ato de violência, ainda que os invasores ou ocupantes não usem armas. Nem mesmo quando se entra em uma propriedade de modo pacato, sem derrubar ou cortar cercas, nem assim se pode considerar o ato como não sendo uma violência, pois ela está implicita no fato de se tomar algo que pertence a outro. E a lei autoriza o proprietário de uma coisa a usar os meios que puder para proteger seu bem, seja um veículo, uma carteira com dinheiro ou uma fazenda. Portanto, quando o dono de uma propriedade contrata seguranças para proteger sua terra de invasões, ele não está extrapolando o direito de proteger o que é seu.
Que os líderes do MST sabem disso, prova-o a troca de palavras que estão fazendo há algum tempo. Eles sabem que a invasão é ilegal e sujeita o invasor não só às penas da lei, mas à reação em legítima defesa do proprietário.
O que aconteceu no último fim de semana no Pontal do Paranapanema deixa evidente como a situação agrária está se complicando e uma pequena fagulha pode deflagrar uma tragédia. A tentativa de ocupação de uma propriedade, da qual os sem-terra derrubaram mourões e cortaram cercas, foi repelida por um grupo de pessoas armadas. Um contingente da Polícia Militar acompanhou tudo e só interferiu depois que houve tiros. Foram apreendidas armas e detidos alguns dos guardas da propriedade para averiguações. Não houve feridos, e isto foi o melhor que aconteceu. Entretanto, nada garante que uma próxima vez os fatos não sejam mais graves.
A radicalização desse problema não deveria interessar nem ao MST. Afinal, a situação das milhares de famílias que perambulam pelas estradas do País sensibiliza a sociedade e conta com a solidariedade de muitos, inclusive de proprietários que propõem a cessão de terras ou sua venda ao Governo para fins de reforma agrária. De fato, a negociação é o único meio de resolver a questão dos que reclamam a terra e do Governo que se comprometeu a realizar a reforma agrária. A política de criar fatos consumados - caso das invasões - lança os sem terra contra a sociedade, justamente quando mais precisam dela para resolver o seu drama.
Além disso, essa política já provocou o efeito igual e contrário por parte dos proprietários visados, todos anunciando que vão usar a força para deter os invasores. É, portanto, uma política potencialmente suicida e explosiva. Não é possível cruzar os braços diante disto, e as lideranças políticas, religiosas e sindicais responsáveis deveriam estar fazendo todos os esforços para convencer o comando do MST a mudar a estratégia.
A reforma agrária não pode ser feita com violência. Nem precisa. A invasão - ou ocupação - de terras não abrevia os prazos, não agiliza os processos, não dá garantia de propriedade a ninguém. Simplesmente, produz o inverso. Atrasa os processos, torna os proprietários resistentes e desacredita os sem-terra perante a sociedade. Torna-os marginais.
Quem desrespeita o direito de posse de outro, coloca-se na posição de ver seu próprio direito contestado quando obtém uma propriedade. O respeito à lei é a base da vida civilizada. Fora da lei, não há solução. Os esforços oficiais para fazer a reforma agrária - cem mil foram asssentados em dois anos - e as novas leis que desestimulam a manutenção de terras improdutivas mostram que o caminho legal não é tão lento quanto parece, e dá mais futuro do que um acampamento improvisado na propriedade alheia.

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