O otimismo dos brasileiros é ancestral, atávico, doentio. Saudavelmente doentio. Mesmo confiando menos no Plano Real e temendo que desemprego e inflação subam e a renda caia, a grande maioria dos brasileiros acha que 98 será um bom ano. A última pesquisa do Ibope para a Confederação Nacional da Indústria vale um estudo psico-sócio-cultural. Mais: os resultados mostram que a sensibilidade da população para os assuntos econômicos, mesmo distantes, é apreciável, pois as respostas refletem o sentimento das pessoas depois da crise asiática. Antes de outubro, os números eram bem melhores para todos os itens - Real, inflação, desemprego e renda.
Mais ainda: o Governo que se cuide porque recessão e desemprego deixaram de ser as principais ameaças ao Real. Agora, no entendimento da população, as grandes ameaças são o descontrole dos gastos de governo e o aumento dos preços e tarifas públicos. Em outras palavras, o próprio Governo é uma ameaça ao Real!
Os brasileiros estão pensando... e pondo o dedo na ferida. Foi-se o tempo em que a maioria aceitava as coisas sem fazer relações de causa e efeito entre elas. Pensar é um ato da maior gravidade para governos e políticos acomodados...
É fato indiscutível: os gastos do Governo explodiram em 97. E não foi só porque os tigres asiáticos quebraram, suas moedas despencaram e os juros brasileiros tiveram que subir. A dívida líquida total do Tesouro Nacional (incluindo juros) passou de 16,4% do Produto Interno Bruto em 1996 para 20,1% no ano passado. Mas dois meses antes de acabar o ano a dívida total já estava em 18,5% do PIB. Por aí se pode ver que, mesmo sem o choque de outubro, o rombo ia ser 2 pontos percentuais maior que o do ano anterior. A crise asiática apenas agravou uma situação que já era ruim.
O povo tem razão. É verdade que o Tesouro conseguiu um bom resultado se forem retiradas as despesas financeiras (os pagamentos de juros). Fechou o ano com um superavit primário (receitas menos despesas operacionais) de 0,78% do PIB. Foi maior que a meta estabelecida, de 0,5% do PIB. Mas juro é dívida e dívida é despesa.
O povo tem razão também quando vê nos preços públicos uma ameaça à estabilidade da moeda e da economia. O aumento das tarifas de serviços como água, energia elétrica e telefone, assim como os preços dos combustíveis, é facilmente percebido pela população. Principalmente quando essas coisas sobem 10, 20 ou 30% mais que a inflação, como aconteceu no ano passado. Todos os brasileiros já sabem, escaldados pelos anos 80 e 90, que preços públicos puxam os preços privados. Vai daí, o povo conclui que o Real é ameaçado pelo próprio Governo - o que é péssimo para o Real, para o Governo e para o País.
Mas, apesar de tudo, os brasileiros acham que as coisas vão melhorar e querem colaborar. A tal ponto que a maioria (67%) admite redução da jornada de trabalho com redução do salário, para não perder o emprego. Embora se deva considerar que a resposta nunca seria a mesma se o emprego não estivesse em risco, a atitude é cooperativa e totalmente oposta à dos líderes sindicais ligados à CUT. A oposição também corre perigo...
Pelo otimismo dos brasileiros, o Brasil não correria perigo. Mas o Brasil depende mais do Poder - de sua competência e sensibilidade - do que dos brasileiros. A pesquisa não pode passar em branco pela Praça dos Três Poderes.

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