As últimas declarações da secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright indicam que os EUA estão, finalmente, dispostos a recuar de sua intenção de bombardear o Iraque, em represália à recusa de Saddam Hussein em permitir a continuidade do trabalho dos inspetores militares da ONU. O recuo americano - que, porém, não é definitivo - foi ditado mais pelo isolamento a que este país se viu submetido em suas intenções bélicas do que propriamente ao esmorecimento de seu ânimo militar.
De fato, depois de enfrentar firme resistência dos países europeus, com exceção do aliado de toda hora, a Grã-Bretanha, Madeleine Albright está por encerrar sua missão no Golfo Pérsico e Oriente Médio, recebendo dos dirigentes da maioria dos países dessas regiões o apelo para que se dê tempo ao tempo, que não se tome nenhuma decisão precipitada.
Apenas Bahrein e Kuwait deram sinal verde a um eventual ataque norte-americano. Quanto ao Kuwait, as razões são mais do que óbvias, pois este país ainda não cicatrizou as profundas feridas provocadas pela bárbara invasão de seu território pelo Iraque, em 2 de agosto de 1990, que deu origem à aliança internacional contra Saddam Hussein.
A rica e influente Arábia Saudita, que sempre manteve estreitos laços com os Estados Unidos, não está disposta a endossar mais uma aventura militar contra seus arquiinimigos iraquianos. Seu argumento é humanitário: uma represália militar contra o Iraque levaria mais sofrimento e dor ao já exaurido povo iraquiano, que, em última instância, é quem mais tem sofrido os efeitos da insanidade de Saddam e do embargo econômico que vigorou até recentemente.
O embargo foi flexibilizado, permitindo-se que o Iraque exporte US$ 2 bilhões por semestre de sua produção de petróleo, mas até o momento esta concessão trouxe resultados pouco palpáveis para a vida dos iraquianos, que sofrem uma crise crônica de falta de alimentos e remédios. O secretário-geral da ONU, Koffi Annan, sensibilizado com a situação da população iraquiana, propõe o aumento do limite de exportação de petróleo para R$ 5,2 bilhões por semestre.
Os verdadeiros motivos que levaram Saddam a proibir a continuidade do trabalho dos inspetores da ONU são desconhecidos. Há evidências fortes de que os palácios presidenciais - e há mais de cem deles! - escondam estoques e indústrias de armas químicas e bacteriológicas, conforme declarou um dos funcionários da ONU no Iraque. Para o bem de sua nação e de toda a humanidade, Saddam deveria franquear o acesso a eles. Ao negar a vistoria, alimenta a suspeita de que seu governo desrespeitou compromisso, firmado com a ONU, de eliminar os estoques e arsenais químico-bacteriológicos e interromper sua fabricação, que tantas mortes já causou. Que o digam os curdos e a minoria xiíta do Iraque.
A nova crise no Golfo, que entra em seu quarto mês, reforça ainda mais a imagem ditatorial e insensível de um homem que, em busca de poder, glória e riqueza, submete uma nação às mais duras condições de existência e mantém a comunidade internacional em permanente estado de alerta. A ofensiva militar pretendida pelos Estados Unidos está temporariamente suspensa. Mas quanto tempo mais estará disposta a esperar a nação mais poderosa do planeta, até que Saddam aceite colaborar com a ONU?

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